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Sobre a Leitura Popular da Bíblia (II)

3ª PARTE: A DINÂMICA INTERNA DO PROCESSO DA INTERPRETAÇÃO

Por Carlos Mesters e Francisco Orofino

Na leitura que as Comunidades fazem da Bíblia, apesar das diferenças próprias de cada país ou região, existe um método, cujas características básicas são comuns a todos. Um método é muito mais do que só umas técnicas e dinâmicas. É uma atitude que se toma frente à Bíblia e frente à própria vida. O método dos pobres se caracteriza por estes três critérios:

1. Os pobres levam consigo, para dentro da Bíblia, os problemas da sua vida. Lêem a Bíblia a partir da sua luta e da sua Realidade.

2. A leitura é feita em Comunidade. É, antes de tudo, uma leitura comunitária, uma prática orante, um ato de fé.

3. Eles fazem uma leitura obediente: respeitam o Texto e se colocam à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir.

Estes três critérios (Texto, Comunidade, Realidade) articulam-se entre si em vista do mesmo objetivo: escutar Deus hoje. Eles atualizam a seu modo o mesmo método que transparece no episódio de Emaús (Lc 24,13-35). São como três aspectos ou etapas de uma e mesma atitude interpretativa frente à Bíblia. Entre os três existe uma dinâmica interna que marca o processo da interpretação popular: conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao povo; servir ao povo, por sua vez, leva a desejar um conhecimento mais aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante. É uma dinâmica que não termina nunca. Estes três aspectos: um nasce do outro, supõe o outro e leva ao outro.

Não importa tanto a partir de qual dos três aspectos se inicia o processo da interpretação. Isto depende da situação, da história, da cultura e dos interesses da comunidade ou do grupo. O que importa é perceber que um aspecto fica incompleto sem os outros dois.

Geralmente, em todas as comunidades, há pessoas que se identificam com um destes três aspectos: 1. pessoas que querem conhecer a Bíblia e que se interessam mais pelo estudo; 2. pessoas que insistem mais na Comunidade e nas suas funções internas; 3. pessoas mais preocupadas em transformar a Realidade, servindo ao povo na política e nos movimentos populares.

Tudo isto produz tensões entre os vários grupos e interesses. Estas tensões são saudáveis e fecundas. Por exemplo, em alguns lugares, a prática política mais intensa dos últimos anos está pedindo, agora, um conhecimento mais aprofundado do texto bíblico e do contexto social, onde este texto foi produzido, e uma vivência comunitária mais intensa da espiritualidade da libertação. Em outros lugares, a vivência comunitária chegou no seu limite e está pedindo uma ação mais engajada nos movimentos populares. Com outras palavras, as tensões ajudam a criar um equilíbrio que favorece a interpretação da Bíblia, e impedem que ela se torne unilateral.

Às vezes, porém, estas tensões são negativas e podem levar cada um dos três aspectos a se fechar sobre si mesmo e a excluir os outros dois. O itinerário da interpretação popular, muitas vezes, é tenso e conflitivo, com risco de fechamento e de retrocesso.
Quando a comunidade alcança o objetivo de um destes três aspectos (conhecer, conviver ou transformar), alguns membros, por fidelidade à palavra, querem avançar e dar um passo adiante, e outros, em nome desta mesma fidelidade, recusam a abertura. É o momento da crise e também da graça. Nem sempre vence o grupo que quer avançar.

1. Todos os movimentos pastorais usam a Bíblia e nela se apóiam. Em nome da Bíblia, os fundamentalistas recusam a interpretação e a abertura para a realidade. Em alguns lugares, os grupos bíblicos que se fecharam em torno de si mesmos e em torno da letra da Bíblia, tornaram-se os grupos mais conservadores da paróquia. O próprio exegeta pode correr o risco de fechar-se dentro do estudo liberal e até progressista do texto bíblico, mas colocando-se a serviço das forças conservadoras da opressão.

2. Muitos movimentos se fecham no Comunitário, no místico, no carismático, e recusam a abertura para o social e o político. Eles se abrem para o serviço aos pobres (e muito!), mas não numa linha de transformação e de libertação. Deixam tranqüila a consciência dos opressores e não incomodam o sistema em que vivemos.

3. Existe também o fechamento do lado oposto, embora com menor freqüência. Às vezes, acontece o seguinte. Uma comunidade ao alcançar um alto grau de conscientização e de comprometimento político começa a dar menos importância à vivência comunitária, às devoções pessoais, às romarias e procissões. Tudo isso, para eles, pode ser manipulados com relativa facilidade pela ideologia dominante, e concluem, apressadamente, que tais práticas não contribuem tanto para a transformação. Por isso, eles correm o perigo de fechar-se no social, no político, no serviço ao povo, esquecendo-se da dimensão espiritual e mística da convivência comunitária.

Embora compreensíveis, fechamentos assim são trágicos, pois nenhum dos três alcança o sentido sozinho. Para superar este perigo, é importante manter um ambiente de diálogo. Pois onde a palavra humana circula com liberdade e sem censura, a palavra de Deus gera liberdade.

4ª PARTE: NOVIDADE E ALCANCE DA INTERPRETAÇÃO POPULAR

Dentro da interpretação que os pobres fazem da Bíblia existe uma novidade de grande alcance para a vida das igrejas. Novidade antiga que vem de longe e que retoma alguns valores básicos da Tradição comum! Seguem aqui sete pontos que, de uma ou de outra maneira, sinalizam o itinerário:

1. O objetivo da interpretação já não é buscar informações sobre o passado, mas sim clarear o presente com a luz da presença do Deus-conosco, Deus Libertador; é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Redescobre-se na prática a nova visão da Revelação, de que falamos acima.

2. O sujeito da interpretação já não é o exegeta. Interpretar é uma atividade comunitária em que todos participam, cada um a seu modo e conforme a sua capacidade, inclusive o exegeta que nela exerce um papel especial. Por isso, é importante ter nos olhos não só a fé da comunidade, mas também fazer parte efetiva de uma comunidade viva e buscar o sentido comum aceito por esta comunidade. Esta pertença efetiva exerce uma influência crítica sobre a função da exegese científica que, assim, se coloca mais a serviço. O mesmo vale para a teologia. Por causa das mudanças ocorridas no mundo a teologia da libertação entrou em crise e está em fase de revisão. Por outro lado, é bom constatar que a leitura popular não está em crise, mas cresce em todo canto. Pois, como dissemos, o seu sujeito não é o exegeta, mas o povo das comunidades eclesiais de base.

3. O lugar social de onde se faz a interpretação é a partir dos pobres, dos excluídos e dos marginalizados. Isto modifica o olhar. Muitas vezes, por falta de uma consciência social mais crítica, o intérprete é vítima de preconceitos ideológicos e, sem se dar conta, usa a Bíblia para legitimar o sistema de opressão que desumaniza.

4. A leitura que relaciona a Bíblia com a vida é ecumênica e libertadora. Leitura ecumênica não quer dizer que católicos e protestantes discutem as suas divergências para chegar a uma conclusão comum. Isto pode ser uma conseqüência. O mais ecumênico que temos é a vida que Deus nos deu. Aqui na América Latina, a vida de grande parte da população corre perigo, pois já não é vida. Leitura ecumênica é interpretar a Bíblia em defesa da vida e não em defesa das nossas instituições e confissões. Na atual situação em que vivem os povos da América Latina, uma leitura em defesa da vida, necessariamente, deve ser libertadora. Por isso mesmo, ela é conflitiva. Tornou-se sinal de contradição. Por ser ecumênica e libertadora, extrapolou as fronteiras das instituições e agora é lida a partir dos diferentes grupos marginalizados: negros, índios, mulheres, homossexuais. O critério básico não é mais a igreja, mas sim a vida, lida através dos olhos da raça, do gênero, da cultura, da classe. Ou seja, o critério é explicitar o mistério da igreja tal como foi definido por Paulo: "Todos vocês que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo!" (Gl 3,27-28).

5. Aqui aparece a característica própria da exegese popular. O problema maior entre nós não é, como na Europa, a fé que corre perigo por causa da secularização. Mas é a vida que corre o sério perigo de ser eliminada e desumanizada por um sistema econômico injusto e excludente. E o que é pior, a própria Bíblia corre perigo de ser usada para legitimar esta situação em nome de Deus. Como no tempo dos reis de Judá e de Israel, usa-se a Tradição do povo de Deus para legitimar os ídolos. A Bíblia foi usada para legitimar a conquista das Américas, a política da Apartheid, as ditaduras militares e a repressão. Um dos maiores repressores e torturadores dizia: "Meu livro de cabeceira é o Evangelho de São Mateus!" E Pinochet sempre se comparou com Moisés, libertador do seu povo. A interpretação popular descobre, revela e denuncia esta manipulação.

6. O método e a dinâmica, usados pelos pobres nas suas reuniões, são muito simples. Eles não costumam usar uma linguagem intelectual discursiva, feita de argumentos e raciocínios. Como a própria Bíblia, preferem a sua maneira própria que é contar fatos e usar comparações. A linguagem popular funciona por associação de idéias. Sua preocupação primeira não é fazer saber, mas sim fazer descobrir. Muito ajudou em tudo isto o método da pedagogia do oprimido de Paulo Freire.

7. Aparecem com maior clareza a função e os limites da Bíblia. Os limites são estes: a Bíblia não é fim em si mesma, mas está a serviço da interpretação da vida. Sozinha ela não funciona e não consegue abrir os olhos, pois o que abre os olhos é a partilha do pão, o gesto comunitário. A Bíblia deve ser interpretada dentro de um processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade. A Bíblia é como o coração: quando é arrancado fora do corpo da comunidade e da vida do povo, morre e faz morrer!



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