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A liturgia de Mambré

A leitura litúrgica do capítulo 18 do Gênesis é importante para entendermos o sentido da celebração litúrgica.
 
1. O encontro
 
Sem dúvida alguma, nos encontramos diante de uma bela descrição da hospitalidade oriental que considera uma honra dar hospedagem a um peregrino. Para o povo da bíblia, acolher as pessoas é um ato de fé e de religião. O erro de Sodoma foi, na sua origem, ter recusado a hospitalidade às pessoas que Abraão acolheu com grande carinho e atenção.
Abraão é o homem ao qual Deus prometeu terra e descendência. Mas até o momento presente está sem filho e sem terra. Ele precisa aprender a ser dom pra os outros a fim de acolher o dom da vida que Deus lhe faz através das pessoas que hospeda.
Esta atitude também não é estranha para o nosso povo. Mais de uma vez nós a temos experimentado, ao bater nas portas de alguma casa ou ao passar pelas ruas de um bairro, temos sido convidados a entrar e somos recebidos através de uma calorosa acolhida. Os gestos e as palavras variam segundo a cultura, porém o que se expressa é muito semelhante. A preocupação de melhor servir se expressa na preocupação de oferecer a melhor cadeira e de servir o que há de melhor para comer. Normalmente a pessoa que nos acolhe fica perto de nós e está atenta a qualquer insinuação de nossa parte, para assegurar o melhor serviço possível. É uma maneira simples e direta de mostrar a importância que tem o hóspede através da atenção que lhe é dedicada.
Em todos estes gestos descobrimos a linguagem do amor que se expressa e proporciona uma base insubstituível à celebração da fé. Com efeito, não pode haver liturgia se não se assume totalmente a linguagem da amizade e o ritual próprio do encontro. O tratamento caloroso que se dá a um amigo, a importância dada a uma acolhida sincera, a abertura do coração de quem acolhe e de quem se deixa acolher constituem manifestações explícitas de quem crê que o amor é possível.
O gesto de Abraão manifesta um verdadeiro ato de fé no homem.[1] É importante assinalar a importância que tem esta atitude para quem sabemos que o mínimo gesto feito em favor de um irmão, é ao Senhor que o fazemos (Mt 25, 40).
Estas atitudes constituem a base da celebração da fé, base esta que explicita de forma culminante as atitudes mais profundas forjadas no viver diário.
 
2. A ceia dos amigos
 
Abraão promete aos peregrinos um pouco de água para lavar os pés e um pouco de pão para recobrarem as forças, mas o resultado é um banquete extraordinário: pão feito na hora, com a melhor farinha, um bezerro bem bonito, coalhada e leite, numa palavra, o máximo que ele podia dar. Abraão age dessa forma porque está convencido de que acolher as pessoas é acolher o próprio Deus.
Em torno da mesa, começa o diálogo. Os amigos compartilham o que mora em seu coração. Os visitantes tomam a iniciativa de uma forma que nos surpreende. Há um certo corte literário que nos induz a pensar que não é um grupo qualquer de homens que entraram na tenda de Abraão.[2]
O ritual da amizade vai prosseguindo. A conversa o aclara ainda mais. Abraão já está velho e não tem descendência. Os visitantes (ou o visitante) se mostram desejosos de dar o melhor de si mesmos a quem os escolheu como amigos. Neste contexto, não só perguntam por Sara (a quem aparentemente não conheciam) mas tomam a iniciativa de dizer a Abraão que dentro do tempo previsto, Sara lhe dará um filho... É uma boa notícia que enche de alegria o velho anfitrião. Trata-se trata de uma verdadeira promessa de salvação que é oferecida a Abraão, o que ele mais deseja para que os seus dias encontrem plenitude. A circunstância faz pensar que se trata de uma promessa irrealizável porque Sara já não tem mais as regras. Porém, “há algo difícil para Deus”?
Habitualmente o encontro culmina em torno de uma mesa onde se abre o coração. Só o fato de compartilhar já é em si, salvador. É uma maneira de morrer para a inimizade que divide e de reconhecer que a salvação sempre vem de fora, do outro. Neste contexto, o serviço, a ceia, o diálogo manifestaram a salvação que há num encontro em que cada um dos interlocutores está disposto a dar o melhor de si mesmo. Abraão ofereceu sua tenda. Em troca Javé lhe oferece a vida.
Com isto queremos afirmar o sentido fundamental da celebração litúrgica: celebrar o mistério de nossa salvação. É nossa condição atual que é assumida pelo Senhor da vida para libertar-nos do peso da morte que experimentamos. Se o encontro litúrgico é autêntico, celebra a morte e a vida dos participantes. Sua função é libertar a pessoa das amarras da morte que a escravizam e glorificar a Deus que quer que as
 
3. Quem é o Deus de Abraão?
 
A esta altura nos fazemos uma pergunta: Que imagem de Deus temos depois de meditar este texto?
Sem pensar muito descobrimos um Deus que se achega ao homem, que toma a iniciativa para estabelecer um diálogo com ele e que conhece profundamente seus problemas. Um Deus disposto a compartilhar sua própria vida com a pessoa humana, inclusive sua intimidade. É alguém que se apresenta como amigo e se mostra generoso também em fazer justiça.
Quer dizer, o relato nos faz chegar ao Pai que conheceremos de forma pedagógica através de todas as páginas da Bíblia, até chegar ao “Abba” próprio da manifestação plena de Jesus Cristo, seu filho.
O curioso é que esta imagem cai depois de ler um relato em que Deus não diz praticamente nada de si mesmo. Só uma frase e indireta: ‘Há algo impossível para Deus’. Isto quer dizer que a imagem de Deus que o texto revela, se manifesta através de suas ações em favor de Abraão.
É muito importante ressaltar este fato. A função de uma celebração é fazer com que os participantes tenham uma imagem renovada de Deus. Uma imagem fruto de uma experiência vivida, mais que de uma catequese ou uma explicação teórica. Uma imagem que pouco a pouco vá sendo compreendida de forma integral por quem celebra sua fé. Para esta experiência concorre toda a vida: os sentidos, a afetividade, a recordação vivida, a relação com o grupo e também a razão.
4. Conclusão
 
Ao chegar ao final deste relato queremos pontualizar algumas conclusões:
a) A celebração litúrgica não é, e nem pode ser, alheia à vida de uma pessoa. Ela surge da vivência do homem e da mulher de fé que é capaz de discernir a presença de Deus e os sinais de seu Reino em sua vida cotidiana. Por isso mesmo a celebração tem estreita relação com a riqueza e a pobreza da vida dos participantes.
b) O ritual da celebração litúrgica segue o mesmo caminho que o ritual da amizade: o encontro, a acolhida, o compartilhar, o interceder. Neste contexto se explicita, se proclama e se celebra nossa salvação com a mesma atualidade e complexidade que tem o pecado que distorce nossa vida. O pecado e a salvação são fatos históricos. Assim também o é a celebração litúrgica.
c) A linguagem da celebração não pode ser outra que a linguagem daqueles que a celebram. Da mesma forma, as palavras, os gestos e as formas do ritual da amizade, não podem ser alheios à celebração litúrgica. A dicotomia entre a celebração e a vida indica um divórcio entre a vida e a fé, o que é um dos grandes erros de nossa época (GS 43).
d) A celebração genuína leva os participantes a abrir-se ao dom de Deus com toda a gratuidade, a magnanimidade e a universalidade que ele possui. Experimentar a própria salvação nos leva também ao desejo de que outros possam fazer a mesma experiência.
A celebração se constitui em impulso para o anúncio da Boa Nova, para o serviço, o testemunho e a intercessão diante de Deus e dos homens pelas necessidades de todos os irmãos.
e) O fruto da celebração litúrgica é uma imagem de Deus e de sua ação no meio de seu povo. É uma nova compreensão da atualidade da presença pascal no mundo e na história. Esta compreensão nasce de uma experiência vivida.
Em outras palavras, a liturgia é a celebração de um encontro entre os homens e mulheres abertos ao dom do amor, e por conseqüência, ao Espírito, que é Amor. Este amor não pode fechar-se. Seu próprio dinamismo o leva a difundir-se. De forma especial é na assembléia litúrgica que reconhecemos no irmão o rosto de Jesus. Assim experimentamos a alegria da salvação como uma genuína recriação ou um novo nascimento que nos leva a uma comunhão mais profunda e solidária de irmão para irmão e com o Senhor.
O encontro de Mambré nos apresenta em síntese uma imagem da Eucaristia. Ele contém em si os elementos básicos e germinais da celebração litúrgica que adquiriram seu pleno cumprimento no nascimento e na páscoa do Senhor.


[1] Muitos pensam que se trata de uma prostração por terra em reconhecimento a Javé. Na realidade trata-se de uma saudação respeitosa com se recebe um hóspede.
[2] O corte literário que se percebe na mudança do plural para o singular, em referência a visita (s), ao introduzir o tema de Sara. Note-se o v. 9 que diz: “Perguntaram-lhe (que se refere aos três personagens): Onde está Sara, tua mulher?” O v. 10: “Disse então o hóspede”. Em segundo lugar, o corte se nota também pela repentina introdução de Sara no relato.


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