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A REFORMA ‘EUCARÍSTICA’ DO CONCÍLIO VATICANO II

Já celebramos os 40 anos da Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia (SC), do Concílio Vaticano II, publicada no dia 03.12.1963. Por ocasião do 40o aniversário deste importante documento conciliar, a Dimensão Litúrgica da CNBB promoveu inúmeros encontros de estudos pelo Brasil afora em torno da Liturgia renovada pelo concílio. O mais importante deles foi o Seminário Nacional sobre a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, acontecido nos dias 10 a 13 de março de 2003, em São Paulo. Tais encontros ajudaram muita gente a tomar consciência sobre o sentido e a importância da reforma litúrgica do Vaticano II. E também ajudaram muita gente a se aprofundar ainda mais sobre o alcance teológico-pastoral da reforma, bem como serviram de incentivo para levar adiante o sonho litúrgico concílio...
            Estamos diante de uma Constituição sobre a Liturgia. Todos sabem o que significa isso: uma Constituição! Temos a nossa Constituição Federal, isto é, a Carta Magna que espelha o rosto da Nação e rege a vida em comum do povo brasileiro. As Ordens e Congregações Religiosas têm suas Constituições Gerais, isto é, a Carga Magna que espelha o carisma próprio de cada uma e rege a vida em comum de seus membros. E a Constituição sobre a Liturgia? É a Carta Magna que, com seus princípios teológicos e pastorais, espelha, ilumina e orienta a vida litúrgica da Igreja que, em milhares de comunidades pelo mundo afora, se reúne para celebrar e viver a Páscoa de Cristo e, em Cristo, a nossa páscoa.
            O segundo capítulo da “Sacrosanctum Concilium” trata especificamente da Eucaristia (cf. SC 47-58), sobre a qual estamos estudando. Mas atenção: não podemos abordar a Eucaristia apenas se atendo a este capítulo! Pois o primeiro capítulo (que apresenta os princípios gerais: Natureza e importância da liturgia na vida da Igreja, formação e participação litúrgicas, a reforma litúrgica, a vida litúrgica nas dioceses e paróquias, a pastoral litúrgica), no fundo também fala dela enquanto celebração pascal. Este primeiro capítulo é fundamental para uma correta compreensão da Eucaristia renovada pelo Vaticano II.
            Mas antes, há que se tratar da reforma ‘eucarística’ do Concílio Vaticano II vista dentro do contexto histórico geral da Liturgia. E é o que vamos fazer aqui. Trata-se de uma primeira abordagem, a meu ver, de suma importância, pois nos possibilita intuir e perceber com maior nitidez três coisas. Primeiro: O por quê da reforma do Vaticano II. Segundo: O por quê das dificuldades na implantação da reforma em nosso meio, não obstante os 40 anos já passados. Terceiro: Motiva-nos a levar mais a sério a orientação teológico-pastoral do concílio no que diz respeito, no nosso caso, à reforma ‘eucarística’.  
            Para tanto, veremos primeiro, sinteticamente, algumas características da eucaristia (sua celebração e compreensão) no primeiro milênio da era cristã. Em seguida, em paralelo a estas, destacaremos as “mudanças” acontecidas no segundo milênio, o que vai naturalmente nos acordar para o alcance teológico-pastoral da reforma ‘eucarística’ do Vaticano II[1].
 
 
1. A Eucaristia, sua celebração e compreensão no primeiro milênio:
algumas características
 
 
1.1.    Como primeira característica destacamos a centralidade do mistério pascal. A saber, a eucaristia era entendida como celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o altar era o ponto central, a referência de toda a celebração. Tanto que, para realçar a sua centralidade, em muitas igrejas se colocava sobre ele até mesmo uma espécie de cobertura, uma cúpula (sustentada por quatro colunas), chamada de baldaquino.
1.2.    A presença real de Cristo era vivenciada (sentida) na globalidade da celebração (na assembléia reunida, na Palavra proclamada, na presidência da celebração e, sobretudo, nas espécies de pão e vinho).
1.3.    A Eucaristia como celebração memorial da Páscoa é que constituía a principal fonte de espiritualidade cristã. O “lugar” onde os cristãos encontravam força para levar adiante a missão de Jesus era precisamente a celebração da Eucaristia como memorial pascal.
1.4.    Outra característica: a centralidade da Palavra proclamada. Esta, como presença viva do Senhor falando para o seu povo, era levada a sério, com leitores qualificados, ambão, lecionário, homilia.
1.5.    Prevalecia a consciência de que a Liturgia da Palavra (como momento do diálogo da Aliança) e a Liturgia eucarística (como momento do selo da Aliança) constituíam um só ato de culto
1.6.    O mistério pascal celebrado é que constituída a principal fonte de inspiração teológica. A saber, a teologia eucarística era então elaborada principalmente a partir da experiência do mistério de Deus na divina Liturgia (escuta da Palavra e participação no Sacramento). Estudava-se a Eucaristia no culto e a partir do culto. Como ensinava Santo Ambrósio: “Vocês querem conhecer a Eucaristia? Vejam o que dizem as orações eucarísticas da tradição das igrejas”[2].
1.7.    A própria iniciação à vida eucarística obedecia uma metodologia própria: a mistagogia. A pessoa era iniciada à compreensão e celebração eucarística a partir do rito, isto é, a partir da ação eucarística. O mistagogo ensinava a Eucaristia com um olhar nos seus ouvintes e o outro olhar no altar.
1.8.    Característico também do primeiro milênio é o caráter comunitário e ministerial da celebração eucarística. A saber, o sujeito da ação eucarística era entendido como sendo a comunidade eclesial reunida em assembléia, povo sacerdotal, corpo de Cristo. E isto significa que a celebração era participada por todos, havendo nela inclusive uma variedade de ministérios litúrgicos.
1.9.    E mais, por ser a celebração eucarística uma ação comunitária e ministerial, ela era entendida precisamente como um “comer e beber juntos em ação de graças”, obedecendo ao mandato de Cristo: “Tomai e comei... tomai e bebei”.
1.10.        Outra característica: a celebração do mistério pascal acontecia de forma adaptada às diferentes culturas com sua linguagem verbal e gestual própria, surgindo daí toda uma rica diversidade de famílias litúrgicas tanto no oriente como no ocidente. Dentre os mais diferentes ritos elaborados, destaca-se do rito romano, próprio da diocese de Roma, ao qual nós pertencemos e com o qual nós celebramos a Eucaristia.
1.11.        A liturgia eucarística romana, no primeiro milênio, tinha a característica de ser simples, prática, literariamente elegante, com as orações dirigidas geralmente ao Pai (por Cristo, no Espírito Santo). E não havia manifestações de adoração do Santíssimo na missa. Na verdade, o que se buscava era garantir o essencial, a saber, a Páscoa. Tratava-se de celebrar o mistério pascal, e evitava-se tudo o que pudesse distrair ou “roubar a cena” deste centro absoluto de nossa fé. Nada de muitas palavras nem muitos enfeites para não distrair a assembléia do mistério que se celebra.
1.12.        Enfim, havia uma preocupação com a qualidade (teológica, ritual, espiritual: pascal) da celebração eucarística, procurando fazer ao mesmo tempo a ligação liturgia e vida.
 
 
2.      A eucaristia, sua celebração e compreensão no segundo milênio: Deslocamentos de eixo
 
 
Como o título já sugere, no segundo milênio constatamos uma série de deslocamentos de eixo na celebração e compreensão da Eucaristia. Vejamos:
2.1. Da centralidade do mistério pascal, do primeiro milênio, passou-se no segundo milênio para a centralidade do Santíssimo Sacramento (como “presença real”) e dos Santos. Mais importante que a eucaristia como celebração memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus, é então a hóstia consagrada e os Santos. Centro não é mais a mesa do Senhor em torno da qual a assembléia se reúne para a celebração pascal, mas o sacrário (por isso, é ele que agora, em muitas igrejas, vem coberto com um baldaquino!) e a imagem do(a) padroeiro(a) no topo do altar-mor. A festa mais importante e imponente do ano não é mais a Páscoa, mas Corpus Christi e a festa do(a) padroeiro(a).
2.2. Vimos que no primeiro milênio a presença real de Cristo era vivenciada (sentida) na globalidade da celebração (na assembléia, na Palavra, na presidência, nas espécies de pão e vinho). No segundo milênio esta presença é vista quase que exclusivamente no pão e no vinho consagrados, mas sobretudo na hóstia consagrada. Esquecem-se as outras presenças!
2.3. Se no primeiro milênio a Eucaristia como celebração memorial da Páscoa é que constituía a principal fonte de espiritualidade cristã, agora (no segundo milênio) a fonte de espiritualidade é a devoção ao Santíssimo Sacramento e aos Santos.
2.4. Se no primeiro milênio a Palavra era levada a sério, no segundo milênio o povo praticamente perdeu o contato com a Palavra. Pois o padre lia as leituras em voz baixa, só para ele, de costas, em latim, lá no altar distante colado à parede. Desaparece a prática de leitores proclamando a Palavra. O lecionário é engolido pelo missal. A homilia (explicação da Palavra ouvida) virou sermão (discurso sobre um tema que pode não ter nada a ver com a Palavra ouvida). O ambão virou púlpito de oratória sacra. E o povo substitui a Palavra pela leitura da vida (muitas vezes lendária) dos Santos.
2.5. Se no primeiro milênio prevalecia a consciência de que a Liturgia da Palavra e a Liturgia eucarística constituíam um só ato de culto, no segundo milênio acontece uma separação entre estes dois momentos celebrativos da mesma Páscoa. Tanto é que o primeiro momento era chamado de “Ante-missa”. Importante era estar presente na hora da Liturgia eucarística. E se cria que bastava fiel chegar na hora do ofertório (como diziam) para dar pleno cumprimento ao preceito dominical.
2.6. Se no primeiro milênio o mistério celebrado é que constituía a principal fonte de inspiração teológica e a teologia eucarística era elaborada principalmente a partir da experiência do mistério de Deus na divina Liturgia, no segundo milênio a teologia eucarística vira especulação racional (por influência da Escolástica) sobre a Eucaristia (existência, essência, efeitos, ministro, sujeito da Eucaristia). Tem-se uma visão por demais “material” da Eucaristia. Esta vira um objeto de estudo, como se fosse uma “coisa” a ser pesquisada, pois se perde sua dimensão celebrativa pascal como fonte de compreensão[3].
2.7. A própria metodologia de iniciação à vida eucarística e ao conhecimento da Eucaristia mudou. Se antes se aprendia o que é Eucaristia “na igreja” (isto é, a partir do rito, a partir da ação eucarística), agora, no segundo milênio, ensina-se Eucaristia na escola, em salas de aula, a partir de conceitos elaborados pela teologia escolástica. Catequese eucarística virou “decoreba” de conceitos sobre Eucaristia, com tendência a moralismos...
2.8. Lembrávamos também o caráter comunitário e ministerial da celebração eucarística no primeiro milênio. Agora, no segundo milênio, o que predomina é o individualismo religioso. Enquanto o padre faz a “sua” reza lá no altar, o povo (do lado de cá) se entretém com suas devoções (terço, novenas etc.). Multiplicam-se as missas votivas (como cumprimento de promessa). Multiplicam-se as missas privadas (o padre rezando sozinho a missa), pois aumenta consideravelmente a demanda por missas pelos defuntos. E para poder atender à imensa demanda por missas votivas e pelos defuntos, multiplicam-se os padres “altaristas” (ordenados só para rezar missa!), bem como os altares laterais nas igrejas. Hoje, como se vê pelo noticiário da nossa imprensa, missa também é entendida como uma “cerimônia” que se “encomenda”, ou se “promove”, para “homenagear” alguém (vivo ou falecido), ou para celebrar a “memória” de alguma pessoa ou evento importante e, inclusive, para “festejar” e “comemorar” algum aniversário significativo ou abrilhantar algum acontecimento social; uma cerimônia feita por um profissional religioso contratado (bispo ou padre), à qual a gente “assiste”...[4].
2.9. Se no primeiro milênio a ação eucarística era entendida como um “comer e beber juntos em ação de graças”, agora, no segundo milênio, predomina a prática de cada um fazer a “sua” comunhão devocional, de vez em quando. A comunhão deixa de ser entendida pelo povo como parte integrante de sua participação na ação memorial da Páscoa, para ser entendida mais como devoção pessoal (feita inclusive fora da missa). Aliás, comungar normalmente na missa chegou a ser mesmo coisa muito rara. E daí, que se fez? Substitui-se a comunhão pela adoração da hóstia. Ver e adorar a hóstia na hora da consagração passou a ser para o povo o ponto alto da missa. Por isso (já que o padre celebra de costas), os padres introduzem (na hora da consagração) o gesto de levantar bem alto a hóstia, acima de sua cabeça, para o povo poder vê-la e adorá-la. No primeiro milênio não existia nada disso!... Posteriormente, fazem o mesmo também com o cálice. E mais, adotam o costume de tocar campainhas naquela hora, exatamente para motivar e incentivar a adoração[5].
            2.10. Vimos que no primeiro milênio a celebração eucarística acontecia de forma adaptada às várias culturas com sua linguagem verbal e gestual. Agora, no segundo milênio, impõe-se no ocidente o centralismo romano, a uniformidade romana. Implanta-se uma linguagem verbal (o latim) e gestual rigidamente igual para todas as igrejas do ocidente (com exceção da arquidiocese de Milão), para celebrar a Eucaristia. Por exemplo, nossos índios e negros no Brasil tiveram que “aprender” a assistir a missa rezada em latim! Celebrar a eucaristia (mistério pascal) na língua deles (tupi, guarani, africana etc.), nem pensar! Era a mentalidade da época!...
            2.11. Vimos que a liturgia eucarística romana, no primeiro milênio, tinha a característica de ser simples, prática, literariamente elegante, com as orações dirigidas geralmente ao Pai (por Cristo, no Espírito Santo). E não havia manifestações de adoração ao Santíssimo na missa. Na verdade, o que se buscava era garantir o essencial, a saber, a Páscoa. No segundo milênio nós vemos celebração eucarística transformada num cerimonial complicadíssimo, com inúmeros gestos e movimentações dos ministros de um lado para outro, com inúmeras orações em latim ditas em voz baixa. A complicação atinge seu auge com a pompa barroca. A missa solene se transforma num espetáculo para a visão, com aquele imenso retábulo cheio de flores, castiçais, luzes, imagens de anjos e santos, que se levanta sobre a mesa do altar, e com a imagem do(a) padroeiro(a) lá em cima no topo. Sem falar do monumental e luxuoso sacrário em destaque no centro do retábulo, sobre o altar, bem como dos suntuosos paramentos bordados em ouro adornando os ministros sagrados envoltos em nuvens de fumaça de incenso. Os sinos tocam na hora da consagração, chamando todos à adoração da hóstia que se levanta solene. Terminada a consagração, toca também a banda de música, inclusive o hino nacional. Numa palavra, a missa se transforma num espetáculo para a visão. Enquanto isso (enquanto se assiste ao show), o povo também se entretém ouvindo os grandes concertos musicais do coral cantando as célebres “Missas” com acompanhamento de órgão e orquestra. Portanto, a missa vira um espetáculo para os olhos e para os ouvidos, em que os elementos exteriores do culto acabaram por “roubar a cena” (quase que por completo) daquilo que é o cerne da celebração eucarística, a saber, a Páscoa (paixão, morte e ressurreição do Senhor). E as missas não solenes continuam sendo encaradas como uma “reza” do padre que a gente encomenda....
            2.12. Enfim, chamávamos a atenção para a preocupação pela qualidade da celebração eucarística no primeiro milênio (qualidade teológica, ritual, espiritual, pascal), procurando fazer ao mesmo tempo a ligação liturgia e vida. No segundo milênio, preocupa-se mais com um discurso teológico intelectual racional do que com uma teologia e espiritualidade pascais que brotam da própria experiência celebrativa. Sem falar na preocupação por demais centrada no aparato externo e rubrical das cerimônias a serem executadas pelos padres. Como vemos no missal de Pio V (1570): Tanto na sua Introdução como nas suas rubricas internas, toda a orientação gira em torno do que o padre rigorosamente deve fazer e como deve executar. Esquece-se, portanto, que existe um povo!... Na há uma preocupação com a participação deste povo na ação memorial pascal. A qualidade teológica e comunitária cede lugar para um exagerado legalismo e rubricismo litúrgicos.
            2.13. Dá a impressão que o segundo milênio, do ponto de vista da compreensão e celebração da Eucaristia, foi totalmente negativo. Foi e não foi! Foi, porque a liturgia eucarística como celebração pascal, uma vez colocada longe do alcance do povo, foi parar em segundo plano, fora de eixo. Uma enorme perda! E não foi negativo, porque o povo, longe da liturgia, soube sabiamente criar uma enorme força alternativa de resistência frente às intempéries da vida. Como? Apoiando-se nas práticas devocionais ao Santíssimo Sacramento e aos Santos. Se tivesse sido diferente, como foi no primeiro milênio, com certeza teria sido bem melhor, é claro!...
 
 
3.      Vaticano II: resgate do essencial “perdido”
 
 
No final do século XIX, mas principalmente dos inícios do século XX para cá, a partir dos avanços nas pesquisas das fontes bíblicas, patrísticas, litúrgicas, e até mesmo arqueológicas, do primeiro milênio, começou-se a perceber o quanto havíamos nos distanciado das tradições cristãs mais antigas e das raízes cristãs mais genuínas no que diz respeito à Eucaristia.
Desenvolve-se então na Igreja um grande movimento de resgate do verdadeiro sentido da Liturgia para as comunidades cristãs. Trata-se do chamado “movimento litúrgico” que, sem dúvida, preparou muito bem o terreno para o advento do concílio Vaticano II.
E, então, que faz o Concílio? Com a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, ele resgata uma série de elementos “eucarísticos” essenciais que praticamente havíamos perdido de vista em todo o segundo milênio. E aí que está o imenso e inquestionável valor do Concílio!
3.1. Resgata-se a centralidade do mistério pascal: A eucaristia é celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Resgata-se o verdadeiro sentido pascal do “mistério da fé”: “Anunciamos, Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição...”. Resgata-se a centralidade do altar da celebração no espaço da celebração.
3.2. Resgata-se consciência da presença real do Senhor na globalidade da celebração: na assembléia, na Palavra, na pessoa do sacerdote que preside, e sob as espécies de pão e de vinho (cf. SC 7)
            3.3. Resgata-se a principal fonte de espiritualidade cristã, a saber, a Eucaristia como celebração memorial da Páscoa (cf. SC 14).
            3.4. Resgata-se a centralidade da Palavra, provocando-nos assim a levá-la a sério, com leitores qualificados, ambão em destaque, uso do lecionário e/ou evangeliário, prática obrigatória da homilia nos domingos e dias de festa (cf. SC 24-25).
            3.5. Resgata-se a consciência da Liturgia da Palavra e da Liturgia eucarística como um só ato de culto, como dois momentos de vivência da mesma Aliança.
            3.6. Resgata-se o mistério celebrado como principal fonte de inspiração teológica. Uma teologia eucarística terá que ser elaborada sobretudo a partir da experiência de Deus na divina Liturgia (escuta da Palavra e participação no Sacramento).
            3.7. Resgata-se a mistagogia como metodologia mais apropriada na iniciação à vida eucarística. Iniciar à vida eucarística a partir do rito, da ação eucarística. Um grande desafio que ainda temos pela frente, na catequese!
            3.8. Resgata-se o caráter comunitário, ministerial e participativo da celebração eucarística. Resgata-se o sujeito da ação eucarística como sendo a comunidade eclesial, povo sacerdotal, corpo de Cristo (cf. SC 26 e 48). Reconhecem-se os diferentes ministérios leigos na liturgia (acólitos, leitores, músicos, instrumentistas, sacristão, comentarista, acolhida etc.) como verdadeiros “ministérios litúrgicos”. E é impressionante como “Sacrosanctum Concilium” realça a participação plena, consciente, ativa e frutuosa na celebração da divina Liturgia como um direito e um dever de todos (cf. SC 14 e, sobretudo, SC 48).
            3.9. Resgata-se o sentido da ação eucarística como “comer e beber juntos em ação de graças”.
            3.10.Resgata-se a necessidade de a celebração da Eucaristia se adaptar às diferentes culturas e índoles dos povos, com sua linguagem verbal, gestual e musical próprias (cf. SC 37-40).
            3.11. Resgata-se a “nobre simplicidade” da liturgia eucarística de nossa tradição romana do primeiro milênio (cf. SC 34). Isto é, trata-se de garantir o essencial: a Palavra e o mistério pascal. Há uma tendência hoje (precisamente por causa de uma mentalidade viciada que herdamos de todo um milênio passado) de querer complicar tudo de novo, de inflacionar nossas missas novamente com um monte de “adornos” e “entulhos” que só vem comprometer a visão daquilo que é essencial na celebração da Eucaristia. Um exemplo só: Certas missas hoje são tão barulhentas, do começo ao fim, com tanto canto, com instrumentos musicais estridentes abafando as vozes do povo, com tanta fala e palavrório, tanto ruído, tantos shows, que não se abre praticamente espaço para o principal Participante “falar”, não se abre espaço para o Senhor se manifestar..., precisamente na suavidade, na calma e no silêncio.
            3.12. Enfim, resgata-se a preocupação com a qualidade teológica, ritual, espiritual, pascal da celebração eucarística. Daí a insistência na formação litúrgica em todos os níveis (cf. SC 14-20). E quando dizemos “formação litúrgica”, entende-se como um processo permanente de aprendizado e aprofundamento sobre o sentido teológico-espiritual da ação celebrativa eucarística, do qual deve brotar naturalmente um comportamento solidário dentro da sociedade, segundo a justiça do Evangelho[6]. Graças a Deus, hoje está havendo um despertar para a necessidade de tal formação em muitas de nossas comunidades.
 
 
4.      Concluindo
 
 
Creio que (depois de refletir sobre a reforma ‘eucarística’ do Concílio Vaticano II vista dentro do contexto histórico geral da Liturgia) ficou claro o por quê desta reforma. E já dá para ir percebendo também as dificuldades atuais na implantação da reforma. Afinal, herdamos uma prática e compreensão de Eucaristia com sérios deslocamentos de eixo, que vem de todo o milênio passado, e que, portanto, está enraizada no nosso inconsciente. E, então, fica em aberto, a saudável preocupação: E agora, daqui para frente?!... O que fazer? O caminho está aberto, com certeza cheio de necessárias tensões.
Enfim, no sentido atiçar ainda mais a preocupação e o desejo evangelizar dentro do espírito do Concílio Vaticano II, convém também perguntar: Em que pé estamos? O que já assimilamos nestes 40 anos da teologia e da prática do concílio e o que não? Quais são os resquícios daquela teologia eucarística deslocada de eixo (do segundo milênio) que existem por aí? Que providências vamos tomar para adiantar o passo? Afinal, o que nós agora vamos fazer?
 
 
Bibliografia
Para eventual aprofundamento
 
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[1] Para maiores detalhes históricos, cf. BUYST Ione & DA SILVA José Ariovaldo. O mistério celebrado: memória e compromisso
(= Coleção Livros Básicos de Teologia 9) (Valencia/Espanha – São Paulo, Siquem – Paulinas, 2003).
[2] Cf. GIRAUDO Cesare. Num só corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia. São Paulo, Loyola, 2003, p. 7-13; id., Redescobrindo a eucaristia. São Paulo, Loyola, 2002, p. 9-11.
[3] Cf. GIRAUDO Cesare. Num só corpo..., op. cit., p. 1-7.; id., Redescobrindo a eucaristia, op. cit., p. 8-9.
[4] Cf. SILVA José Ariovaldo da. Missa-memória. Missa-homenagem. In: Mundo e Missão, São Paulo,n. 77, novembro 2003, p. 34-35.
[5] Id. Eu te adoro, hóstia divina. A propósito da adoração ao Santíssimo Sacramento e a missa. In: Revista de Liturgia, São Paulo, n. 166, 2001, p. 4-5; Grande Sinal, Petrópolis, 55, 2001, p. 437-443; id. Missa e adoração ao Santíssimo Sacramento. Aprendendo da História. In: Mundo e Missão, São Paulo, n. 77, novembro 2003, p. 34-35.
 
[6] Cf. o que maravilhosamente lembra o papa João Paulo II em sua Carta Apostólica “Mane nobiscum, Domine” (= Coleção “A voz do Papa” 187). São Paulo, Paulinas, 2005, nn. 27-28, p. 30-32.
 
Frei José Ariovaldo da Silva


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