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APOCALIPSE - ALIMENTAR A ESPERANÇA

A apocalíptica – Teologia da esperança.

            A linguagem apocalíptica surgiu na época das lutas dos Macabeus (142-63 AC). Quando Antíoco, no século II – 135 AC, quis impor o culto ao Imperador grego, como religião, os irmãos Macabeus se rebelaram, juntamente com a população judaica. Outro momento de pensamento apocalíptico, é quando o Imperador Tito, na II Guerra Judaica (70 DC), destrói o templo, e Roma impede os hebreus de voltarem para Jerusalém. Nesse tempo de luta e sofrimento, vai surgindo a linguagem apocalíptica, como um modo de escrever e de entender a história.

            É preciso estudar não só o livro do Apocalipse, mas a teologia apocalíptica, porque todo o NT está imbuído dessa linguagem. Desde que a  profecia foi “morrendo” em Israel, no pós-exílio, foi surgindo a linguagem apocalíptica. Nesse contexto, das lutas macabéicas, é que devemos entender João Batista. No início de sua missão, Jesus entrou nessa corrente e foi batizado por João. Isso ajuda a entender as Comunidades Primitivas e dá pistas porque João, o Evangelista, e Pedro organizaram comunidades só em Jerusalém, nos inícios da ação apostólica.

            Segundo o relato dos Evangelhos, Jesus foi só uma vez para Jerusalém, ao passo que João  dá notícias de três subidas de Jesus para Jerusalém, sempre por ocasião da Páscoa. Jerusalém não era o “chão” de Jesus. Jesus começou e realizou sua pregação, a partir da periferia, Galiléia, Judéia e seu entorno, e daí vai pra Jerusalém.

Porque a ressurreição se dá em Jerusalém? – Para lá iam os idosos, que voltavam da diáspora, a fim de serem ser enterrados no vale de Josafá... A partir deste fato entendemos o problema de Atos 6,1-2: “as viúvas dos hebreus e as viúvas dos helenistas, não eram tratadas igualmente, na distribuição da sopa”,  pois umas eram consideradas puras, e outras, as helenistas, eram consideradas impuras, porque  vinham da Diáspora.

É a mentalidade presente nas primeiras comunidades naturalmente, e por isso, é apocalíptica. O que temos em ICor 7, 1-15:  recomenda a abstenção sexual, que era vista como impureza, tinha o sentido de que deveriam estar preparados, para “Volta do Senhor”. E o mesmo pensamento está em I Ts 4,15: “... nós que ainda estivermos na terra (vivos), seremos arrebatados...” Além disto temos vários Apócrifos apocalípticos, nesta mesma direção, o de Pedro, o de Tomé...

Ao formular o Cânon pelas Comunidades, ao longo dos séculos II – III, foram eliminados os apocalipses, que tinham forte influência gnóstica.

 

O Apocalipse é obra da virada do I º. Século:

1 ª.  Fase, escrito no tempo de Nero, os capítulos 4 -11.

2 ª.  Fase, no tempo de Domiciano (fechou o Senado), os cap. 15 – 22,5.

3 ª. Fase, no tempo de Nerva, que foi imperador de transição, porque era velho, é escrita a  introdução, 1,3-22 e 22,6-21. E Trajano, que sucedeu a Nerva, foi uma verdadeira tragédia para os cristãos. É nesse contexto que surge o livro do Apocalipse, após diversas e sucessivas elaborações. E inicia (1,1): “Esta é a revelação de Jesus Cristo: Deus a concedeu a Jesus, para ele mostrar aos seus servos as coisas que devem acontecer muito em breve”.

A linguagem atual do Apocalipse foi mais elaborada, posteriormente, na época de Antíoco IV, o Epifanes (= manifestação de Deus), indica a onda da divinização do Imperador, este governou a partir da Antioquia. E, em  198 DC, os romanos dominavam a Palestina. Com esses dados é possível entender o Ap. Pode-se afirmar que na opressão os oprimidos para poder se manifestar, falam numa linguagem simbólica, de modo que o opressor não possa entender, mas eles se entendem perfeitamente.

Os judeus, após a destruição do Templo, por Tito (75), fazem uma grande assembléia em Jamnia para reorganizar o judaísmo, como existe até hoje. Ao invés do templo o que os une será a Lei. Com essa atitude puseram os judeus “cristãos” contra a parede: Ou a Lei, ou Jesus Cristo! No início, o cristianismo não era uma religião, era um grupo, que dentro do judaísmo, aceitou Jesus Cristo. Agora sendo expulsos por não serem “judeus”, segundo a lei, perderam as regalias romanas, concedidas ao judaísmo, E Domiciano (81-86 DC) decreta os “cristãos”, religião ilícita e desencadeia uma grande perseguição.

Os cristãos se deparam com a divinização do Imperador, sob o nome de Augusto, o divino, com culto obrigatório. (Faraó,  o filho de deus). Usavam a religião imperial para legitimar o poder. Ainda hoje o  sistema  se apresenta como religião e usa os símbolos religiosos para se impor: o mercado, o consumismo, o schopping, que é a grande catedral do consumo... e fala mal de todas as religiões, porque apresentam outros valores e comprometem a imagem do deus mercado, que tudo explica e quer se impor a todos. E isto também é apocalíptico: o poder do mercado é poder de morte, para os que não se submetem aos seus domínios.

Em Daniel, capítulos 10 a 12, temos também a linguagem apocalíptica. (Leia o texto). Nesse contexto, a resistência é a forma de se organizar e animar para fazer frente ao agressor. (É o que se cantava na ditadura militar: “Apesar de você – Médici – amanhã será outro dia”...) É nessa linguagem que o oprimido expressa sua mensagem e os da resistência a entendem, mas ela passa oculta aos opressores. Forma a consciência,  anima, encoraja e une para a luta. Mas também aqui pode estar o grande equivoco em que se metem os adeptos da leitura fundamentalista.

 

História do movimento apocalíptico:

1 º. – Na Monarquia (1000 a 586 AC), tempo dos reis Davi, Salomão, Isto é, quando Israel
é Reino Monárquico. A linguagem apocalíptica está presente, no tema: “O dia de Javé”, que aparece muitas vezes, na palavra dos profetas ( Is 2,12; 13,9). O que representa “O dia de Javé? – Quando o povo é oprimido, quando devem pagar pesados impostos, por estarem dominados pelos exércitos estrangeiros... recorrem à expressões que denunciam esta dominação. No tempo de Manasses (687-602 AC, em II Re 21) estava a serviço do Império Assírio e o exército invade Jerusalém, provocando um grande derramamento de sangue, para dominar a resistência. Então o povo alimenta a esperança de que “Deus vai intervir e libertará Israel”. Recuperam assim a memória do Êxodo. Desenvolve-se uma teologia, que alimenta a esperança pela libertação de Israel. Amós fala às elites:  “A intervenção vai ser não contra o Estado, é contra vocês, que dominam o povo”.  Por sua vez, é em 333 AC que o Império grego oprime o mundo inteiro... e, símbolo desta opressão, é o episódio da vinha de Nabot (I Rs 21). Durante a monarquia temos a profecia da resistência, a partir da inspiração do Êxodo..

 

2 º. – Exílio Babilônico (586 a 539), Israel vive uma grande mudança: antes tinham rei, templo, altar e autonomia. Agora, no exílio, não tem rei, templo nem altar e estão lá como escravos, “não-povo”. Não existe mais  Estado-nação, não tem autonomia. É do profeta Ezequiel, como invectiva contra essa situação, o que lemos nos capítulos 38 e 39, e que nunca serão lidos na liturgia! Estes capítulos retratam a opressão e a dominação estrangeira, com o fim da identidade nacional. Em Ez. 40 a 48, aparece o sonho, a  utopia. A utopia é o elemento essencial na profecia. A utopia profética é o projeto para o povo hebreu, não é um projeto de transformação planetária. É um projeto nacional, não global. Muitas das imagens de Ezequiel as encontramos no Ap. Essas imagens querem a transformação, o fim dessa ordem que aí está, a dominação, a exploração da natureza.

 

3 º - Período Persa (539 a 532 AC). A dominação babilônica significou o fim do culto, e o massacre de Jerusalém. Os persas, ao contrário, apóiam a cultura, a religião do povo dominado. Apóiam a ideologia dos dominados e conquistam suas elites, para cobrar impostos. As elites locais passam a ser aliadas do império dominador. Em Neemias,   lemos, que eram obrigados a vender as filhas, as propriedades para poder comprar trigo e pagar os impostos (5,2). Era uma aliança estratégica do império com as elites locais, assim também neutralizam a profecia, não tem mais profetas como antigamente. O templo de certa forma dominava a profecia. Amós ao profetizar, desagradou o templo e foi expulso: “Vai profetizar em tua terra...” (7, 10-17). De outro lado temos em Joel, nos capítulos 3 e 4, fala do “Espírito de Javé” , para despertar o povo e julgar os opressores.

Além da profecia, outras formas de resistência, são “As novelas bíblicas”, como obras populares: Rute, Éster, Judite... (o direito do povo de ter comida; dos pobres de terem terra, filhos. Quando a desvalida não tem seus direitos respeitados, assume o papel de prostituta para ver respeitada a lei, Rt 3,1-18). Esdras e Neemias também mostram como grupos se reúnem e se organizam para formar a comunidade, ao voltarem do exílio.

 Jonas mostra que Deus quer a salvação de todos, e quando se irrita porque a lagarta comeu a mamoeira (Jn 4): “Será que não vou ter pena de Nínive, onde moram mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir a direita da esquerda?”

            Em Isaias 24 a 27 está o julgamento de Javé, a justiça de Deus, o fim dos tempos. E em Is 34 – 35, vemos o julgamento de Deus, a salvação de Deus, que dá a vida para o povo, contra os opressores. Esta já é ima visão mais globalizada da utopia profética. Esses capítulos foram escritos depois do exílio e formam o que se chama o “Pequeno Apocalipse de Isaias”.

            Judite é uma história, pré-exílio, sob os babilônicos, do tempo de Daniel, para encorajar o povo a resistir e lutar contra a opressão. Ela vence a força opressora do grande Holofernes, general de Nabucodonosor, e, confiando em Deus, liberta o povo.

 

4 º - Período dos gregos (332 a 142 AC). São várias fases desta opressão, mas é no tempo dos Hasmoneus, que Matatias anima a luta e enfrenta a força dos dominadores gregos.

a) – Mudança do sistema econômico. Os gregos introduzem o sistema escravocrata. Antes existiam escravos, mas não constituíam uma força econômica. Com os gregos os escravos passaram a ser objeto de compra e venda em praça pública. A contradição: os gregos que se orgulhavam de criar a “democracia”, que não passava de uma “plutocracia” (dominação dos poderosos!), apreciam a escravidão. A democracia foi uma vantagem, para os que “estavam dentro dos muros”. Com o sistema escravocrata, especialmente os prisioneiros de guerra assumiram um “valor de mercado”, objeto de compra e venda. Foi uma mudança institucional muito grande, na vida das sociedades. Antes os hebreus, podiam ser reduzidos à condição de escravos, mas no “Ano Sabático” tudo voltava à condição inicial, mas na sociedade escravocrata, ser escravo é condição de vida!

b) – Os gregos, impuseram aos judeus a cultura helênica: jogos no ginásio, a filosofia, a organização urbana, os valores, ideais...Decápolis na Transjordânia. Os persas aceitavam que os dominados mantivessem sua religião, contanto que pagassem os tributos, ao passo que os gregos impunham a ferro e fogo a cultura deles, alem dos tributos Hoje os valores do “deus-mercado”, o consumismo, o individualismo e a preocupação de enriquecer a qualquer custo... tudo isto está na mente e no coração, e, pela força da mídia, vai tomando conta de todos.

c) – Surge como forte resistência judaica, ante a imposição de estruturas contrárias a suas tradições. Assim pode-se entender o porque de tanta oposição a comer carne de porco, pois era abandonar a cultura e a religião (Lv 11,7; Dt13,8), foi o que provocou a resistência dos Irmãos Macabeus. A luta dos Macabeus para manter a fidelidade à Lei e à Aliança (II Mc 7,1-42).

d) – A divinização do Imperador, Antíoco IV (157-173) Epifanes, (imagem de Deus)  devia ser cultuado e quem não aceitasse seria perseguido, preso, torturado e condenado à morte. É esta época, que é mais difundida a linguagem apocalíptica. Em Daniel 7 a 13 aparece com toda a força. (O livro de Daniel é o que tem mais textos em aramaico. O episódio de Daniel na cova dos leões, cap 3, é texto grego, bem como o episódio da casta Susana, cap 13 e 14).

Resistência, há de várias maneiras: 1).  Na luta armada, matam os judeus que iam prestar culto ao Imperador. I Mc 1ss relata a luta sangrenta e faz uma análise mais crítica. 2). A outra maneira de alimentar a resistência é a literatura apocalíptica. Desperta a esperança, organiza o povo e encoraja para lutar contra a opressão e permanecer fieis à Aliança. Isto aparece no episódio dos três  jovens, Dn 3, que ao serem alimentados com verduras, ficam mais belos; são lançados, nas chamas, que se transformam em refrigério. A linguagem apocalíptica alimenta a resistência e se alimenta da resistência e da sabedoria do povo. No tempo dos Macabeus não tinham a idéia da ressurreição. Tinham certa esperança de vida depois da morte.

 

Os romanos organizaram o Império e passam para República, que termina com Júlio César:

 Com Otáviano, que se deu o título de Augusto, “divino”, inicia o Império romano, o qual governa  de 31 AC até 14 DC. Seguem-lhe:

Tibério, que imperou de 14 a 37, nesse tempo, deu-se a morte de Cristo.

Calígula, de 37 a 41 DC, se deu o título de “divino” e nomeou seu cavalo senador.

Cláudio de 41 a 54, não impôs o culto ao imperador, aos povos dominados.

Nero de 54 a 68. A partir de 64 desencadeiam-se grandes perseguições aos cristãos. Na sua mania de grandeza e querendo construir seu palácio, incendeia o bairro judaico de Roma e culpa os cristãos. Com Nero termina a dinastia dos Césares. Há grande disputa pelo poder e começa a dinastia dos Flavianos, com Vespasiano  69 a 79. É o tempo em que se dá a irrupção do Vesúvio, próximo a Roma e soterra a cidade de Pompéia.

Após Vespasiano governa o filho Tito de 79 a 87

Domiciano, imperador, irmão de Tito, de 81 a 96. Esse período é o contexto necessário para se estudar e entender o Apocalipse. Domiciano foi tirano e déspota, fechou o senado. É o tempo em que explode a questão dos judeus contra os judeus cristão: e se dá a separação definitiva com a decisão de Jamnia, pois os cristãos não puderam mais ser considerados judeus e perdem as liberdades garantidas aos judeus. Os cristãos são perseguidos por não se dobrarem diante da estátua do Imperador. Em Ap 13,15: a besta da terra é capaz de dar vida ou morte!... O que é isto? Refere-se ao poder do Imperador! A “imagem do pau oco” era a imagem de madeira, que representava o Imperador, que tinha uma abertura por trás, e aberta no lugar dos olhos, de modo que um soldado escondido podia observar os que se dobravam diante da imagem do Imperador; e os que se recusassem eram condenados à morte. Isso tornou a perseguição muito sangrenta.

 

A passagem do Evangelho:   “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”     Mt 22,11,  foi muitas vezes mal interpretada. O que é de César? As leis opressoras, os impostos, as legiões, as elites aliadas... “fora com eles”. A terra, a vida, a liberdade é de Deus e isso deve ser respeitado. Essa postura de Jesus mostra que Ele é contra todo o tipo de opressão e de dominação. O episódio de Mc 5 5,1-20: o endemoniado gadareno e os porcos: o que “prende” são as algemas, as correntes... lembram as legiões romanas, os soldados. As correntes, os grilhões... traziam os escravos presos para as praças e serem vendidos. Os porcos, lembram os costumes dos estrangeiros, porque não podiam ser criados em Israel! Os romanos usavam uma insígnia militar representada por um porco; ... e os porcos se afogam, lançando-se ao mar... Esse é o destino do Império romano. Deve-se ver esta imagem e fazer uma leitura, a partir deste contexto!

Devemos ler Jesus não só no confronto com os fariseus, mas fazer uma leitura política para entender sua visão em relação ao Império Romano. O Evangelho foi escrito a partir do testemunho da comunidade e é aí que estas ‘coisas’ são misturadas na reflexão teológica. No Evangelho temos o testemunho dos sinais e palavras de Jesus junto com a reflexão  da comunidade, que faz uma leitura de Jesus no contexto da época, em que Jesus vivia. O trágico é quando se fecham as possibilidades interpretativas, porque se nega o lugar em que se localiza o testemunho.

Os romanos tinham interesse em matar Jesus. Ele os questionava, como estrutura de opressão. Os fariseus e doutores da lei recorrem aos romanos para que Ele fosse condenado à morte e morte de cruz. Por que não recorreram aos romanos no caso da mulher adultera e a condenaram ao apedrejamento?

Temos a teologia do templo com sua organização do culto – do sacerdócio – do sacrifício. Temos recuperação da teologia profética, que nessa época estava esquecida. Jesus vem e recupera a corrente profética: contesta o esquema religioso; a política do Estado e a dominação social. Isso dá uma explicação para o “mistério da cruz”, que é a tese central de todo o pensamento paulino.

 

Depois da “era flaviana” temos a “antoniana”,  com Trajano, de 98 a 117. Ele manda matar Inácio, Bispo de Antioquia. Quando em ITm, 3,1-7, Paulo incentiva para que assumam o episcopado é porque ser bispo, naquele então, era estar exposto ao martírio. Mártir é o que dá a vida em testemunho da fé.

O Ap foi escrito para manter a unidade da Igreja, que enfrentava tensões, medos e mesmo divisões.

-         No período de  César foi escrito Ap. 4 a 11.

-         No período flaviano, com Dominiciano, foi escrito Ap 12,1 - 22,5: A mulher, que está prestes a dar à luz, e a besta...

-         No tempo de Trajano, as 7 cartas às 7 Igrejas e Ap 1,4-3,22  e 22,6.

O Ap parte da realidade vivida e apresenta a utopia a ser alcançada:  O novo céu e a nova terra, Ap 21,1, na visão popular a superação de toda a desgraça.

 

O contexto histórico dos essênios: havia uma aliança entre as elites, as que dominavam o templo com quem ‘controlavam’ o Império. O Império indicava o Procurador para que indicasse ou aprovasse o Sumo Sacerdote. Por outro lado, o farisaísmo  tinha muitas tendências, fala-se de sete, controlava o templo, o sacerdócio, as regras da pureza ou impureza legal... Fariseus e saduceus constituíam a elite, a alta sociedade... Os ‘pobres de Javé’  eram os excluídos. Como resistência a essa situação, surgem os essênio, que se organizam em comunidade. Em Qumram, há 16 km de Jerusalém, na entrada do deserto, lá se estabeleceu uma forte comunidade, separada das elites. Eles se dedicavam ao trabalho, ao estudo da Lei, à purificação... Eram celibatários, uma opção frontalmente contra a mentalidade hebraica, pois o não ter filhos, era sinal de maldição, mas eles a assumem por causa da iminência do “dia de Javé”.

Quando Davi tomou Jerusalém, (IISm 5,6...) Abiatar era sacerdote (IISm 21,25), um sacerdote rural. Tempos depois aparece Sadoc, um sacerdote urbano. Bersabeia, uma das mulheres de Salomão, apóia Sadoc e Abiatar só não é morto por Solomão, por causa da ‘lei do respeito ao sagrado’. Então Solomão confinou Abiatar em Anatol. Depois disto quem mandou no templo sempre foi um descendente de Sadoc, os sadocitas. Os levitas foram aceitos ‘como empregados do templo’. Isto permanece até os tempos dos Macabeus, quando Jonatas se declarou Sumo Sacerdote  (Icr 9,13), aqui surgem os essênios; eles se retiram e entram em guerra contra os romanos.

João Batista tinha ligações com os essênios. Jesus não se ligou ao grupo, embora recebesse o “Batismo de João” (Mt 3,13) os essênios eram um grupo fechado, separado e só admitiam os ‘iniciados’. O processo de iniciação era longo, durava dois anos. Viviam não só em Qumran, tinham grupos em várias cidades, sempre separados. Eles radicalizavam suas posições mais do que os fariseus, em relação à pureza legal. Eles se consideravam os bons.Era uma seita do judaísmo e quanto mais praticavam a pureza legal, tanto mais apressavam  “O Dia de Javé”. Por isso o rigorismo legalista, a preocupação pela purificação. É bom ler Ezequiel nessa perspectiva.

Os essênios preservaram os textos da Tora e dos Profetas. Certamente tinham seus copistas... E como no deserto havia pouca água, e eles tinham um sistema de a armazenar, essa particularidade foi providencial para a conservação dos manuscritos de Qumran, que só foram descobertos em 1947.

Jesus chama os fariseu de hipócritas Mt23,13. Para nós, homem ‘fariseu’ é sinônimo de hipócrita.

A linguagem apocalíptica está não só no Apocalipse, mas se encontra em muitos livros da Bíblia, especialmente nos Proféticos. É importante ler o Ap nas etapas: - o passado: eles caíram;   - o presente: ele aí está dominando e oprimindo, como  Império; - a lição: eles cairão; - o que estamos vivendo agora, a esperança, a transformação; - o futuro: um novo céu e uma nova terra.

A divisão CÉU; indica a utopia – O trono no céu - Ap 4.         

                  TERRA,  indica o sofrimento presente, lugar dos fiéis   

                   INFERNO, sofrimento futuro, como lugar dos infiéis.    

No século II, para dar autoridade ao Ap, foi ligado a personagens da Equipe Apostólica: Papias atribuiu textos do NTa nomes importantes: a Mateus e João que eram Apóstolos. A Marcos que seguiu Pedro e Paulo. A Lucas que era da ‘equipe missionária’ de Paulo. E porque João critica Pedro e no acréscimo, do Ev. de Jo 21, aparece a “crítica”: “Pedro tu me amas? Apascenta...” E Pedro pergunta: “Senhor o que vai acontecer a João? -  O que você tem com isso? ... siga-me”!

 A autoridade dos livros é o Espírito Santo! Aqui na terra, entre os “irmãos”, autoridade é serviço, esta é a grande lição do mestre!

O Ap fala de um profeta de nome João, Ap 1,1 e 4,9, que aparece mais vezes.  “Eu João...”  não deve ser identificado com o Apóstolo João. A média de vida, no tempo de Jesus, era por volta de 30 anos. Se João tinha 20 anos, quando Jesus foi crucificado, pelo ano 100 deveria ter 90 anos! O Ap foi escrito pelo ano 100!

Hoje não se procura o ‘autor’. O que vale são os sinais e as palavras. A vivência da mensagem nas Comunidades Cristãs Primitivas.

Por exemplo: Em Jo, quem vai ao túmulo de Jesus é Maria Madalena.

Em Mt,  vão ao túmulo, Maria Madalena e a outra Maria.

Em Mc,                                     “ , a mãe de Tiago e Salolmé.

Em Lc,                                                                 e Joana.

            Vemos ai, com que liberdade, agem os autores, no momento em que foram feitas as reflexões e os relatos.

 

            Como situar a ligação de Jesus com João Batista? João Batista, como os essênios, praticava o “Batismo de Penitência”...  “O machado já está posto na raiz... Raça de víboras... Convertam-se... O Dia de Javé...”  Mt 3.

            Situando-se na história: é Imperador de Roma, Tibério César; há o Sumo Sacerdote;  Herodes Antipas, e  Herodes, o Grande, morreu 4 anos AC.

Depois de muita hesitação, o imperador Augusto decidiu, em 4 aC, dividir o reino de Herodes entre os 3 filhos:

 Arquelau filho de Maltace, a samaritana, foi nomeado etnarca da Judéia, Idumeia e Samaria. As cidades de Cesareia e Sebaste foram incluídas no seu domínio.

Herodes Antipas (4 a 39), o segundo filho, recebeu a Galiléia e a Pereia (a Transjordânia judaica). Denominou-se “Pantocrator” – ‘o todo poderoso’! Ele queria se tornar rei de toda a Palestina. Reconstruiu Séforis, para ser a capital, junto ao Mar da Galiléia, mas para agradar o Imperador de Roma deu-lhe o nome de Tiberíades. Com isso podia dominar a pesca e o mercado, o que aumentava em muito os impostos! Com essa atitude aumenta o sofrimento do povo pobre, e favorece assim a condição para o aparecimento da linguagem apocalíptica e escatológica.

O terceiro filho, Herodes Filipe recebeu Gaulanites, Batanei Traconites e Auranitides, assim como Cesareia Panias. A maioria de seus súditos era, provavelmente, não judeus.

 

            Jesus vai para a Região Litorânea e inicia a realização dos “sinais e o anúncio da Boa Nova”. Aí se dá o confronto do “Reino de Deus”  com o ‘Reino de Roma’. Jesus se apresenta a João Batista para ser batizado. Jesus vê o exército de Herodes prender João Batista e para depois degolá-lo. Depois destes fatos, Jesus muda de estratégia.

            O Reino de Deus é  perspectiva religiosa e política, (100% religiosa e 100% política). Jesus entende sua missão como as forças do reino enfrentando as forças de satanás, que estão em Roma. O Evangelho de Marcos esclarece esse enfrentamento. A primeira coisa que faz é o confronto com satanás no deserto. Satanás ou o diabo ( aquele que divide). indica as forças das estruturas injustas, que dominam e exploram o ser humano, (Mt 4). Espírito impuro ou demônio, indica as doenças, as misérias sócio-psicológicas em que o povo se encontra.

 A primeira cura que Jesus realiza é a cura de um endemoniado, na sinagoga, (isto indica a opressão da lei! Mc 1,23). O único sinal de Jesus, que é relatado nos quatro Evangelhos, é a partilha do pão Este particular quer indicar o novo tipo de relacionamento entre as pessoas, proposto por Jesus, as relações fraternas! Esse é o primeiro pilar do Reino; o segundo se baseia nas curas, as pessoas libertas, poderem andar. Com isso Jesus indica que não é só curar as doenças, mas é preciso ir à causas e superá-las, em vista do Reino que deve acontecer.

A transformação da sociedade exige novas relações em vista do Reino: a reconciliação e o perdão devem estar sempre presentes. Perdoar setenta vezes sete vezes; mesmo que não tenha sido pedido, deve estar preparado para o perdão. Nisto Jesus é radical. Para Jesus o importante é a vida, mas, para os fariseus o mais importante é a lê!.

Em Ap 12, temos a luta do Dragão com a Mulher. Satanás persegue a Mulher, nas dores do parto. É o momento de maior fragilidade para a mulher. Mas o Anjo a leva para o deserto e a terra se abre e absorve a torrente de água...

Em Ap 13, o poder político absolutizado, é o Anticristo.

No capítulo 14, o Cordeiro está em pé, no monte Sião e os 144.000 assinalados.

Nos capítulos 14,6 a 19,10, mostra o que vai acontecer: em 15, o julgamento, e em 16 o julgamento definitivo; em 17 o julgamento da prostituta, Roma; em 18 a destruição da Babilônia; em 19, a vitória sobre a  grande Prostituta (Roma); em 19,11, Cristo, o Cordeiro vence as bestas (o mal); em 20, o Dragão é preso, por 1.000 anos, depois o Dragão será solto e, finalmente, consumido pelo fogo.

A Comunidade Primitiva entendia a Parusia, a partir de sua realidade presente. A prática de Jesus é o confronto com o mal, e, apesar da vitória aparente dewstes, desperta a esperança da vitória definitiva do bem sobre o mal. O Cristo ressuscitado está vivo, entre os discípulos e na Comunidade.

A luta do reino de Deus contra o reino do mundo é uma luta permanente! E em Jo 19,36, diante da pergunta de Pilatos, Jesus fala claramente: “O meu reino não é deste mundo”. A dimensão afetiva, política, social e religiosa, aponta para “O novo céu e a nova terra”, Ap.21,1; exigem a fidelidade, o martírio e o testemunho.  A prática de Jesus nos indica o caminho: Ele escolheu e chamou os discípulos, organizou a Comunidade e está vivo, presente na Comunidade de seus seguidores.

A  história nos mostra que a Besta tem capacidade de se adaptar, atualizar e modernizar seus esquemas opressivos! Mas apesar de todo o aparato de dominação e exploração, o mundo vai se conscientizando, que o que aí está e como aí está, não pode continuar. O Planeta Terra não suporta mais esse consumismo desenfreado e a depredação da natureza. Por isso se impõe a mudança econômica, política e social. A única saída que aparece para a humanidade e para vida no Planeta terra é a economia solidária. O consumismo desordenado não é mais possível. A austeridade de vida é uma necessidade. É inadmissível a obsessão pelo lucro a qualquer preço, até mesmo às custas de mortes e guerras. A ‘coisa’ vai mudar! A vitória é certa e definitiva.

 

 

 

                            APOCALIPSE E UTOPIA – Ir. Lúcia Weiler

Utopia é possível?  O que é utopia? E a utopia política...?  Em Dom Quixote de La Mancha temos diversas utopias, alimentadas pelo idealismo de Dom Quixote. Hoje ao contrário fala-se do “fim das utopias”!...

Estudar Bíblia é como estudar o corpo, ele questiona, dói, faz pensar. No estudo do episódio da Viúva de Sarepta (IRs 17), com um grupo de periferia,  uma mulher começa a chorar e diz: é justamente isso que está acontecendo comigo!  temos para nosso alimento a “última porção de farinha”! Mas o estudo também alegra e faz despertar a esperança! O mundo é complexo e devemos nos colocar dentro dessa complexidade para chegar à realidade e ver os desafios que ela nos apresenta. A complexidade exige discernimento e exige que se olhe a realidade com o coração.

A leitura do Ap é difícil, não só pela figura e imagens, que apresenta mas também pelo  jeito com que “foi costurado”, em diferentes épocas da história. Daí a necessidade de construirmos juntos a utopia: o Ap é a construção da esperança; construção de utopias políticas e sociais, a partir da fé e da gratuidade.

Um tema que me prende a atenção é a “figura da mulher”, como ela aparece na Bíblia. Aparece como pecadora  (Eva); como prostituta (Jesabel)... A questão de gênero leva ao estudo de uma “Teologia Feminina”. Em Ap. 12 a Mulher aparece enfrentado o Dragão. Maria é enaltecida e chamada de “bendita” em função da maternidade, não pela sua feminilidade, como pessoa!

Em Jo 8, Jesus perdoa Maria Madalena e ela passa a seguir no grupo de Jesus.

Na opressão e na época da ditadura, o povo se expressava numa linguagem figurada. A música de Caetano Veloso: “Debaixo dos caracóis de teus cabelos...”, no tempo da ditadura tinha um sentido, muito além do namorado, em relação à namorada! “A fofoca é a linguagem da resistência dos pobres”!

O povo do Ap. tem uma resistência silenciosa e uma mística profética. É preciso estudar o Ap, numa atenção crítica, para se entender o sentido profundo e alimentar a esperança... o que dá força para enfrentar as dificuldades e sentido à vida.

 

O que é utopia?  É um “não-lugar” ou “qualquer-lugar”. Quando começa a utopia? Quando termina? Termina quando começa a imposição ou quando uniformizamos as diferenças. Quando há uma uniformização total,  política, econômica... aí termina a utopia.

O Ap nasce da sabedoria popular, como resistência à situação oficial. Faz parte da utopia não ser totalmente realizada. Não é um programa, um projeto definido. Não nega a realidade. Está presente com uma ligação dialética com a realidade.  Na comunicação deve-se ter presente o que conhecemos e o que descrevemos; a linguagem descreve e ao mesmo tempo ‘cria’ a realidade. Por isso temos a utopia que problematiza a realidade. Um problema é quando a teologia ‘domestica’ a realidade e não dá lugar à surpresa e não dá lugar para a criatividade na reflexão. Uma coisa é ‘consumir teologia’ e outra é ‘fazer teologia’!

A utopia carrega em si o mistério; não está na esfera do funcional; está na esfera do criativo. É preciso esquecer o lugar, o papel, os programas. Deixar espaço para a surpresa, para a gratuidade da vida. Estamos num “mundo programado”... Os MCS... A Internet... dominam mentes e corações.

Utopia e relacionamento pessoal, a utopia exige que se construa junto. A utopia está no germinal, nas pequenas atividades e iniciativas... que despertam sinais de esperança

O que deve ser planejado? Como deve ser feito o planejamento? Onde estão as esperanças? Na gratuidade, na eficiência?  Entre esses parâmetros é que nos movemos e enfrentamos tensões. Utopia é sentimento: qual o sentido da vida? Utopia é quando alguém se  enfrenta os problemas, as limitações e diz :”Valeu a pena!”  A utopia está na alteridade, na vida do povo. Quando tem consciência que o “Reino está presente e ainda não!”  É a busca dos “sinais do Reino de Deus”, do algo mais.

          O Ap é “revelação”, é “desvelamento”, é desocultamento da realidade. O que vence é a teimosia, a força da fé, que manteve os discípulos unidos em Jesus Cristo. A Utopia nasce dos pobres que não tem força para enfrentar a luta, mas se alimenta da mística que leva à resistência; alimenta a esperança. O Ap traz as figuras que enfrentam o Império e leva a ser fiel a Jesus de Nazaré; as visões; os símbolos... A linguagem é visionária; aparece o anjo que põe a mão no ombro e diz “Não tenha medo!”

          O Ap joga  muito com as duas figuras: o bem e o mal; com a imagem de que Deus é o Senhor da História. Em todas as cenas de alguma forma está presente o céu e a terra, daí ser necessário unir a utopia com a realidade.

          Em Ap 12, é descrita a luta do Dragão contra a Mulher. É a experiência de quem está vivendo esta realidade, o fio condutor é o mistério da Morte e Ressurreição do Senhor, que se faz presente na vida dos mártires. E quem vence é o fraco, contra todo o aparato do Império.

          É o “kairós”, a Boa Nova de Deus, que conduz a História. O Salvador conduz o povo à vitória. Por isso o presente é marcado pela visão: “Não temas!”  O Ap tem muita ligação com os textos da Sabedoria e dos Profetas: Quem vence é o Cor



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