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Páscoa de Cristo na páscoa do povo

            A Páscoa é a grande festa do povo cristão. Nela celebramos de modo mais intenso o Mistério Pascal de Jesus Cristo, ligado à vida e à luta do povo por mais vida. Dizemos que a Páscoa é passagem da morte para a vida, da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz.

            Neste texto, queremos buscar as origens históricas desta festa e suas adaptações ao longo da história e seu sentido teológico e litúrgico.

1.      COMO COMEÇOU

A comunidade começou a se humanizar no período neolítico (3 a 4 mil anos antes de Cristo), no Hemisfério Norte (Oriente Médio). O povo que era normalmente peregrino, nômade, começa a se instalar num determinado lugar e formar pequenas vilas no meio dos campos de agricultura. O modo deste povo viver era muito rudimentar. Eles dependiam muito da natureza, ou seja, das 4 estações do ano, para a agricultura e a criação do gado.

2.      O CORDEIRO

Um dos primeiros ritos usados pelos povos nômades era a matança do cordeiro. Era uma festa celebrada na primeira lua cheia da primavera. É a festa da passagem do inverno para a primavera, do frio para o calor e a luz. Era para celebrar o nascimento dos primeiros cordeiros e garantir sua fecundidade. O cordeiro, que tinha sobrevivido no ano anterior, era sacrificado e seu sangue era passado na soleira das portas, para dizer aos povos vizinhos que ali morava um aliado, um companheiro.

3.      ÁZIMOS

Outro rito da primavera usado nos ambientes agrícolas é o rito dos ázimos, os grãos das primeiras espigas eram moídos, amassados e misturados com água e assados sobre uma pedra quente. Era feito um pão às pressas, sem fermento e por isso chamado de ázimo.

É uma festa de alegria pela colheita. Em nossa região é comum as famílias alegrarem-se com o feijão novo e preparar uma sopa gostosa. Assim eles celebravam a alegria da nova colheita, mesmo tendo ainda reservas do ano anterior.

O sentido do pão sem fermento é este: o novo precisa ser celebrado na ausência do velho. O fermento ao levedar a massa estraga-a. Pão fermentado estraga mais rápido que o pão sem fermento. Na visão mítica deles, usar fermento no início da colheita seria matar o germe da proteção da colheita e tudo estaria perdido. O rito dos ázimos, além de ser um gesto de gratidão a Deus pelos frutos é também um rito, que visa a proteção da colheita.

Como vimos, os povos antigos orientavam suas atividades em função do sol e das quatro estações do ano. Havia a tendência para festejar estes períodos decisivos. Além da festa da primavera, havia a festa da colheita do trigo (festa das tendas), a festa dos Tabernáculos (colheita dos frutos), a festa do sol (começo do inverno) e outras festas nas quais o povo se reúne para a alegria. Os povos aliados se reúnem para a aliança de sangue.

4.      PÁSCOA: FESTA DA PRIMAVERA

A Páscoa na sua origem é uma festa: agrícola, pastoril, clânica. Houve um tempo em que os pastores e os agricultores desceram ao Egito para buscar alimentos. Viveram lá 400 anos. Cresceram muito mas foram feitos escravos de Faraó e seu exército. Deus liberta este povo através de Moisés. É a passagem da escravidão para a liberdade da Terra Prometida.

Esta libertação acontece no ano 1.225 a.C. e depois de muitas andanças pelo deserto (40 anos), o povo consegue chegar em Canaã, terra onde mana leite e mel, isto é, onde tem grandes rebanhos, muita flor e muita agricultura.

Depois da saída do povo do Egito, a festa da primavera começa a ter um novo sentido. Além da oferta dos primeiros frutos, o motivo principal é a libertação do povo do Egito.

O povo liderado por Moisés já tinha fé no Deus Javé, que significa aquele que é, ou seja, presença libertadora no meio do povo. É aquele que é tudo, aquele que faz tudo. Com esta confiança o povo entrou em Canaã, expulsou os outros deuses, matou os sacerdotes de Baal e começou a experimentar um novo tipo de sociedade, baseada na fé num Deus único, na partilha igualitária das terras, com o poder e o culto descentralizados e com leis que visam o bem de todos.

5.      COMO ERA CELEBRADA A PÁSCOA.

O memorial da libertação é descrito no livro do Êxodo 12, 1ss, no Levítico 23, 5-14, Deuteronômio 16, 1-8 e no Libro dos Números 28, 16-35.

Eis como eles celebravam esta noite:

“No dia 10 (dez) deste mês, cada família tome um animal para cada casa. No dia 14 (quatorze) toda a assembléia de Israel o imolará ao entardecer. Pegarão o sangue e o passarão sobre os 2 (dois) batentes e sobre a travessa da porta. Nesta noite comerão a carne assada  no fogo e acompanhada de pão sem fermento com ervas amargas. Vocês o comerão às pressas porque é a Páscoa de Javé”. (Ex. 12, 3-6; 11).

A matança do cordeiro era uma festa comunitária. Havia danças, muita alegria e festejos, o sangue do cordeiro era distribuído entre as tribos para assinalarem a porta doas casas, significando aliança entre eles. Com o Êxodo este sangue adquire um novo sentido: a Páscoa será a lembrança para sempre do Deus vivo, que para libertar o seu povo derrota o opressor e seus ídolos. O sangue significa agora não só a aliança entre os povos amigos, mas a aliança de Deus com o povo de Israel.

O pão sem fermento (massôt) não é um pão gostoso. É o pão da aflição (Dt. 16, 3).  É o alimento da pressa de quem não tem tempo para esperar. A saída do Egito significava o início de uma nova vida. O povo deveria lembrar dos tempos da antiga escravidão e nunca mais querer cair nela. Esta é também o sentido das ervas amargas. O pão ázimo de centeio ou cevada lembra a passagem (pesah) de Deus na história do seu povo.

6.      RITUAL DE RESISTÊNCIA

A festa da Páscoa era celebrada na primavera, porque foi nesta época que os israelitas saíram do Egito.

A Páscoa tornou-se um ritual de resistência e renovação das esperanças na luta pela sobrevivência em condições hostis. Par os Hebreus, obrigados ao duro trabalho forçado, a Páscoa era uma esperança de libertação e, ao ser celebrada na nova terra, tornou-se um memorial de libertação pela intervenção de Javé em benefício do seu povo.

7.      A PÁSCOA JUDÁICA

A ceia ou Páscoa de Jesus foi celebrada dentro do contexto da Páscoa judaica, que era uma celebração não pública, mas familiar. A celebração iniciava com uma bênção da festa e do vinho (1ª etapa), e com um rito de ablução (limpeza).

A seguir, seguindo o ritual previsto pela lei, o mais novo dos filhos ou um dos presentes, deveria perguntar ao pai de família, o porquê estavam reunidos. Respondendo a esta pergunta, o pai contava a história do Êxodo, a saída dos israelitas da escravidão do Egito, a passagem do Mar Vermelho, a caminhada do deserto até chegar à Terra Prometida.

Como reação natural a esse relato, aqueles que ouviam davam graças a Deus pelos grandes feitos que Ele tinha realizado em favor do seu povo, através de salmos. Depois desta ação de graça comunitária, começava a ceia. O pai tomava um dos pães que estavam na mesa e rezando uma bênção, isto é, uma oração de louvor e ação de graças, dividia-o em pedaços e dava a cada um. Este rito significava a união de todos os que comiam do mesmo pão. Logo em seguida comia-se o cordeiro pascal. Tendo comido o cordeiro o pai tomava um copo de vinho, rezava sobre ele outra bênção e dava este copo para cada um beber dele um pouquinho. Depois rezavam a segunda parte dos salmos do Allel (Sl 113 – 114).

8.      CEIA PASCAL DE JESUS

Na ceia que Jesus celebrou com seus discípulos, conservou algumas cerimônias da ceia judaica, introduziu novas e deu um significado redentor. A ceia de Jesus também têm quatro partes:

1.      Um profundo gesto de humildade, amor e serviço: lavar os pés dos discípulos, Jesus se coloca ao lado dos escravos que lavavam os pés dos seus discípulos, em sinal de serviço e amor e pede que façam o mesmo, explicando o sentido do seu gesto (Jo 13, 2-15).

2.      Jesus fez um longo discurso, explicando aos discípulos o que iria acontecer com ele, animando-os a permanecerem firmes e prometendo o Espírito Santo (Jo. 14 a 17).

3.      Depois que Jesus pega o pão, abançoa-o como fazia o pai de família judeu e traz a grande novidade: Ele diz: “Tomai todos e comei. Isto é o meu corpo que é dado por vós”. (Mt. 26, 26). O pão abençoado não recorda mais a dureza da vida na escravidão do Egito, mas é o Corpo de Cristo entregue por nossa causa e por nossa salvação. Não é mais necessário comer cordeiro, nós comemos o corpo de Jesus no pão consagrado. A seguir Jesus pega o cálice com ninho, abençoa e diz: “Tomai todos e bebei. Isto é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos para o perdão dos pecados”(Mt 26, 27-28). Na Páscoa que os Judeus comeram no Egito, o sangue do cordeiro que pintava as portas era sinal de salvação. Agora não é mais o sangue do cordeiro que é salvação, mas o sangue de Cristo derramado por nós é que nos salva e nos perdoa dos pecados. Na celebração da Aliança do Antigo Testamento, jogava-se sobre o povo o sangue dos animais sacrificados a Deus, em reparação das faltas. Agora é o sangue de Cristo que é derramado por nós, numa nova aliança selada no sangue de Jesus.

4.      A última parte da ceia de Jesus constou do canto do Salmo (Mt 26, 30). Depois Jesus se dirige ao Jardim das Oliveiras. É preso, condenado e morre no dia seguinte. Jesus morre na mesma hora em que os judeus matavam o cordeiro da sua Páscoa. Com isso o Evangelho quer dizer: o verdadeiro cordeiro não é o animal que os judeus matam, mas é Cristo que morre na cruz. A verdadeira Páscoa não é aquela em que se come o cordeiro, mas a ceia do Senhor, onde se come e se bebe o corpo e o sangue de Cristo. A verdadeira e única Páscoa é a de Jesus que está morrendo na cruz, entregando o seu corpo e derramando o seu sangue pela causa do Reino.

9.      NA PÁSCOA DE JESUS A NOVA ALIANÇA

Em Jesus se realiza o pleno cumprimento da aliança selado com o seu próprio sangue. Esta aliança é Nova e eterna, como o próprio Jesus diz aos discípulos ao repartir o pão, vinho, sinais dele mesmo. A morte de Cristo, cumprindo todo o significado do AT é Páscoa do NT. Jesus é o cordeiro Pascal imolado (1° Cor 5, 7). A morte de Cristo, sendo a Páscoa definitiva, é por isso mesmo um sacrifício oferecido uma vez por todas. (Hb 9, 26-28). A morte-Páscoa de Cristo constitui o momento mais forte e culminante da história religiosa do mundo. O sacrifício pascal de Jesus esgota todos os outros sacrifícios e substitui todos eles.

10.  CADA DOMINGO UMA NOVA PÁSCOA

O Domingo é por excelência dia especial para os cristãos, pois foi neste dia que Jesus Ressuscitou e aparece a Maria Madalena e a outras mulheres (Jo. 20, 14-17; Mt 28, 8-10). Jesus aparece e conversa com os dois Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), aparece e conversa com os Apóstolos falando-lhes de paz e dando-lhes o Espírito Santo (At 4, 8; Mc 16, 14-18; Lc 24, 36-48).

Este dia tornou-se para os cristãos um dia memorável. É o dia do Senhor (Ap 1, 10). Neste dia os cristãos se reúnem para celebrar a Páscoa do Senhor e nossa Páscoa. Este dia passou a ser para nós o memorial da grande certeza: a vida venceu a morte para sempre.

Por isso é dia de festa em ação de graças, dia de louvor. Dia em que afirmamos, cremos e confirmamos com palavras e gestos que a morte foi vencida. Na reunião de irmãos ressuscitados antecipamos a festa definitiva do Reino.

11.  A FESTA ANUAL DA PÁSCOA

A partir do século I, os cristãos além de comemoração semanal da páscoa, começam a celebrar a páscoa anual. Esta festa foi herdada dos judeus. Toda a comunidade se reúne na vigília do Domingo da ressurreição. Comemoram a obra da salvação lendo longos trechos do AT e NT, desde a criação do mundo à libertação do povo do Egito. E, ao nascer do sol, liam o relato da ressurreição. Conscientes da presença do Senhor ressuscitado celebravam então a eucaristia.

A partir do século IV, esta celebração começa a desdobrar-se em celebrações do tríduo da morte, sepultura e ressurreição. Surgiu assim a Semana Santa, começando com o domingo de Ramos e o tampo pascal com a ascensão do Senhor e o seu ponto final na festa de pentecostes. A páscoa ainda foi precedida das semanas de preparação que formam a quaresma.

12.  PÁSCOA DE CRISTO NA PÁSCOA DA GENTE

Celebrar a Páscoa, Morte e ressurreição de Jesus hoje, significa assumir o grito de milhões de homens, mulheres, camponeses, menores abandonados, favelados que trazem nas feições as marcas do sofrimento abandonados, favelados que trazem nas feições as marcas do sofrimento de Cristo. É suplicar a libertação, é se reunir em memorial na certeza de que a vida vencerá a morte. Na realidade se Cristo não tivesse ressuscitado, a morte teria sempre a última palavra. Mas, em Cristo ressuscitado, a Páscoa é a festa das festas e através das lutas e vitórias cotidianas, mesmo através do martírio tão presente no meio de nós, podemos viver na alegria pascal, motivo de nossa esperança. A força do Espírito que ressuscitou Jesus, mantém viva na comunidade a experiência fundante da vitória do Cordeiro. Esta vitória vai se manifestando em todos os sinais de vida, que o povo continua criando solidariedade nas pequenas conquistas. [1]

13.  CELEBRAR A PÁSCOA NA AMÉRICA LATINA

O Mistério Pascal da morte para a vida acontece não só na Páscoa de Jesus, a vida de cada um de nós, a vida da Igreja na América Latina, é fruto da Páscoa de Cristo.

“A Páscoa acontece hoje, quando participamos da paixão de Cristo pelo nosso serviço e nosso amor, pelo oferecimento de nossa vida, de nossos sofrimentos, pelo compromisso de servir aos irmãos na construção do reino. A Páscoa acontece hoje, no esforço por crescente comunhão participativa, na consciência de nossa vocação missionária, no empenho pela acolhida e animação catequética da palavra; no espírito de amplo diálogo ecumênico e na séria, corajosa e profética ação transformadora do mundo. [2]

Anunciar a morte de Cristo da América Latina é anunciar a morte do povo pobre, oprimido, sofredor, maltratado e injustiçado com o qual o Cristo se identifica. Proclamar a ressurreição na América Latina e proclamar a fé na vida e redenção das culturas oprimidas e o respeito à autodeterminação dos povos. Num continente marcado pela fome, miséria, doença, falta de trabalho, salários injustos e terra, celebrar a Páscoa é comprometer-se na solidariedade, na luta pela Reforma Agrária, na organização do povo por melhores condições de vida. A verdadeira Páscoa só poderá ser celebrada, quando conquistarmos um continente libre das forças da morte e da opressão.

14.  ESTA NOITE É DIFERENTE

Precisamos recuperar em nossas comunidades verdadeiro sentido da Páscoa. Para nós cristãos, o sacrifício de Cristo, Cordeiro Pascal, ocupa o lugar central: Cristo nossa Páscoa foi imolado. Precisamos porém, recuperar o sentido histórico, fazendo dela uma refeição comunitária de partilha do cordeiro e uma festa da memória da libertação.

Infelizmente por razões culturais, a Páscoa está impregnada de outros símbolos como: ovos, coelho, peixe, girassol, etc. São símbolos de fertilidade e de vida que se renova, mas cordeiro, a passagem, a luz, ficam em segundo plano.

Precisamos aprender dos judeus a passar de geração em geração o significado desta festa. Se alguém nos perguntar: por que esta noite é diferente, inspirados na Hagadá diremos: “Esta noite é tão diferente, porque nosso Deus liberta os escravos, liberta os oprimidos, liberta os aflitos, liberta os pobres, liberta os índios, liberta os negros, liberta os homens e mulheres da opressão, da escravidão, do patriarcalismo, da exploração, do genocídio, da discriminação e a todos nós, especialmente da morte, a mote total e de todas as suas formas presentes no dia-a-dia”.

Esta noite é diferente, porque pelo poder de Deus os hebreus saíram do Egito e Jesus Cristo, ressuscitou da morte. É o que lembramos nesta noite tão diferente, par que nenhum de nós se esqueça disso e com auxílio de Deus, se empenhe com todas as suas forças para acabar com a escravidão e a morte no mundo.”[3]

Pe. Egídio Balbinot



[1]  Silde COLDEBELA, A Páscoa que celebramos. Revista de Liturgia 98, mar/abril de 1990, p 37.

[2] CNBB, Animação da vida litúrgica no Brasil, nºs 48, 49 e 50.

[3]  Carlos DREHER, Por que esta noite é diferente de todas as outras? Revista Palavra Partilhada, nº 1, 1993.



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