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. : Catedral Santo Antônio :.
Onde e como a política pode entrar na liturgia

Introdução
 
Pretende-se neste texto evidenciar a relação entre liturgia e política, especialmente no âmbito da celebração eucarística. Para isso considera-se importante destacar os seguintes pressupostos:
- A liturgia é a celebração do mistério pascal de Jesus Cristo acontecendo na vida do povo pobre oprimido, que vai buscando a libertação pela força do Espírito Santo. O mistério pascal de Jesus Cristo, presente na vida e no processo pascal da história, é celebrado e atualizado na celebração litúrgica. Os acontecimentos da vida e o processo pascal do povo, são também na liturgia inseridos no mistério pascal de Cristo, celebrando-se assim a totalidade do mistério pascal.[1]
- A liturgia cristã por si só, por sua própria natureza, tem uma dimensão política, pois celebra e atualiza a ação libertadora de Deus no mundo. A celebração eucarística é um ato ‘revolucionário’, pois faz a memória da morte e da ressurreição de Jesus, que doou sua vida em favor do projeto do Reino. A própria celebração eucarística, ao mesmo tempo, é um questionamento da falta de comunhão dos bens no mundo.
- “Na eucaristia anuncia-se o reino de fraternidade e de filiação, simbolizado no banquete compartilhado e confraternizado, realiza-se a memória subversiva da morte de Jesus, julga-se à luz da cruz toda atitude eclesial e política contrária ao reino, recebe-se a graça como penhor eficaz para o seguimento de Jesus para a utopia do reino.(...) Toda a ação litúrgica desenvolve-se em forma de oração, de ação de graças ao Pai, de memorial de Jesus, de invocação ao Espírito; mas esta oração eclesial deve assumir o clamor dos pobres deste mundo, o clamor dos sem voz e deve exultar antecipadamente com a esperança do triunfo escatológico do Reino. O pão compartilhado, fruto da terra e do trabalho dos homens, traz incrustada em si toda a dor, o sofrimento e a fome de todos os pobres e explorados deste mundo. É como um memorial da paixão humana que deve ser transformada no pão do reino novo”.[2]
- A política é um elemento constitutivo e essencial da liturgia. E mais: “a celebração do Cristo ressuscitado por crentes reunidos em assembléia é um dos atos políticos mais efetivos que os homens possam realizar neste mundo”[3]. Ela é um ato revolucionário porque contesta toda a dominação, todo o poder e toda a injustiça deste mundo e suscita uma nova ordem de relações de justiça, partilha e fraternidade.
- A liturgia está inserida dentro de um sistema social e político e por isso nenhuma celebração é politicamente neutra: pode tanto reforçar um sistema de opressão, como pode ser fonte e ponto de partida para a libertação dos oprimidos.[4]
- O objetivo da liturgia não é fazer política no sentido estrito da palavra. A liturgia não é um ato público de reivindicação. Trazemos a vida para dentro da liturgia, mas não fazemos política na liturgia. Em outras palavras: não fazemos liturgia para conseguir um fim específico. Não podemos instrumentalizar ou “servir-nos” da liturgia para nossos interesses. Neste sentido o Cardeal Danneels nos diz que a liturgia é “um instrumento de serviço e não de modificações. A liturgia é que serve. Não somos nós que nos servimos. Entramos nela nos dirigindo a Deus para acolhê-lo”. A celebração é feita essencialmente ouvindo, acolhendo e obedecendo. Ela não é uma palavra humana, mas uma resposta humana à palavra de Deus”.[5]
- Não há incompatibilidade entre dimensão profética e dimensão orante na liturgia, ou seja, podemos perfeitamente celebrar o mistério pascal de Cristo misturado com a páscoa do povo, através de palavras, ritos e objetos simbólicos de uma forma orante alegre e afetiva, sem fazer da liturgia uma espécie de “palanque político”. É o que se pretende analisar a seguir.
 
1. Qual a relação entre celebração litúrgica e política?
 
Pretende-se gora refletir mais concretamente como aparece a relação liturgia e política no âmbito geral da liturgia e, num segundo momento, analisar como esta relação acontece nos diversos ritos da celebração eucarística.
 
a) A assembléia convocada
A assembléia por si só tem uma dimensão altamente política, por ser uma reunião pública e aberta a pessoas de todas as classes sociais e de todas as raças e culturas e por se constituir um sinal do Reino de Deus já aqui presente. Além do mais é importante ter claro que a assembléia tem uma amplitude maior do que ela mesma. Ela é um sinal ou sacramento de toda a Igreja. A assembléia litúrgica revela-nos a Igreja (SC 26).
Sem esta consciência de universalidade a assembléia poderá cair no perigo de uma falsa politização, pois sabemos que numa comunidade nem todos tem os mesmos objetivos sócio-políticos.
 
b) O espaço celebrativo
A dimensão política da liturgia se manifesta também no modo de dispor o lugar da celebração. Ela indica a visão que se tem de liturgia. Ele pode espelhar uma Igreja hierárquica, centralizadora e rica, como pode propiciar um ambiente simples e acolhedor onde todos “se sintam em casa”. Não é possível fazer uma celebração popular, orante e participativa onde há um presbitério imitando um palco, alto e distante do povo. Estaríamos reproduzindo e alimentando uma imagem hierárquica de Igreja.
O conceito de Igreja povo de Deus, Igreja-comunhão deve se visibilizar na forma como é construído e organizado o espaço sagrado. Ele deve favorecer a participação ativa da assembléia e o exercício dos vários ministérios. Portanto, nas construções de novas igrejas é essencial preferir a forma circular, ovalada, ou triangular que manifestam visivelmente a assembléia como povo de Deus disposta a renovar em cada celebração a aliança com o seu Deus.
Por fim é importante dizer que o espaço sagrado tem uma função mistagógica e escatológica. Ele deve nos ajudar a entrar no mistério de Deus. Ele é sinal da Jerusalém celeste, do novo céu e da nova terra. É antecipação da morada celeste. É o lugar onde “todas as divisões devem ser superadas”.
 
c) A “política” dos ministérios
A presença de ministérios e sua forma de atuação revelam a consciência política da comunidade e de seus coordenadores. Se na celebração os serviços são realizados por diversos ministérios leigos; se a palavra circula na assembléia; se a presença da mulher é valorizada; se a assembléia se sente sujeito da liturgia, então podemos dizer que a comunidade tem uma consciência política democrática e libertadora.
De outro lado, é importante também que o discurso corresponda à prática. Em muitas de nossas liturgias a visão libertadora de Igreja e dos ministérios proclamada através da homilia, dos comentários e dos cantos, não encontra eco na prática celebrativa: as ações rituais acontecem longe do povo, num presbitério alto e inacessível. Também o modo como muitos “presidentes” se colocam para presidir contradiz o que dizem a respeito da pobreza, da justiça e da solidariedade.
“A dimensão política libertadora da liturgia cristã está no fato de a assembléia, em si mesma, constituir um sinal de uma comunidade igualitária que, pelo seu modo de celebrar, ensaia um mundo futuro e sinaliza que o Reino de Deus está chegando. Acho incoerente e mentiroso um culto que proclame uma mensagem revolucionária e, por sua própria estrutura, revele uma comunidade clerical, autoritária e baseada em privilégios em nome de Jesus Cristo”.[6]
 
d) A acolhida
O primeiro retrato da atitude política de uma assembléia, de seus membros e dos seus dirigentes é a acolhida. Isso é possível verificar a partir da observação do modo como as pessoas são acolhidas e introduzidas no local da celebração. Podemos simplesmente ‘dar ordens’ ou acolher de modo funcional, ou podemos propiciar um verdadeiro encontro de irmãos. É importante repetir aqui, que a linguagem e o tom de voz da equipe de animação deve ser litúrgica e orante e, portanto, totalmente diferente de um show artístico, de uma manifestação política ou de uma festa popular.
Gelineau nos alerta que “a celebração só manifestará sua força política se as relações entre os participantes constituírem por si mesmas modelos indutores de libertação”[7] A acolhida mútua é um exemplo destas manifestações. As relações entre os participantes da assembléia devem ser diferentes das relações comerciais, familiares e sociais. Elas devem manifestar de uma maneira gratuita e amorosa a verdadeira irmandade de filhos de Deus, membros do corpo de Cristo e participantes do seu Reino, superando todas as possíveis diferenças.
 
f) A linguagem litúrgica
A forma e a linguagem que usamos também revelam uma atitude política. Na liturgia devemos evitar a linguagem abstrata, especulativa e argumentativa. Muitas vezes, a própria assembléia gosta de quem ‘fala bonito’, mas essa linguagem aliena e não transforma. “Se a língua da celebração continua sendo a das elites dominantes, a festa postulará uma sociedade oligárquica; se ela é a dos dominados, a festa se tornará a profecia da luta social que ‘derruba os poderosos de seu trono”.[8]
Se queremos entrar em comunhão com o povo precisamos utilizar um linguajar mais simples, fazendo uso de palavras, referências e expressões comuns à vida deste mesmo povo.[9] “A boa simplificação consiste em encontrar o núcleo essencial e dizê-lo numa fórmula simples e eficaz”.[10] Isso não significa que tudo deve ser explicado ou vulgarizado. “Uma missa solene pode não ser compreensível para o povo do ponto de vista teológico, mas é muito bem compreendida do ponto de vista da experiência do mistério e do maravilhoso. E é isso o que mais importa”.[11] Devemos portanto, relacionar a dimensão racional com a dimensão simbólica e experimental.
A linguagem orante, dialogal, amorosa, ajuda a criar um clima celebrativo alegre, propiciando proximidade entre Deus e a assembléia reunida em nome dele. “É importante que as nossas liturgias expressem toda a dor e o esforço de libertação e ao mesmo tempo sejam bem organizadas, bonitas, esperançosas, exuberantes nas suas expressões, envolvendo a totalidade da pessoa humana”.[12]
 
g) Os objetos simbólicos e as ações rituais
- Os gestos, símbolos e ações simbólicas devem ser valorizados e incentivados, pois eles favorecem a comunicação com o sagrado. “Para recuperar toda a força dos símbolos na liturgia é preciso redescobrir e fazer aparecer sua base política, tanto no seu contexto original (das comunidades primitivas) como do seu contexto atual (de nossas comunidades).”[13]
Consideramos de fundamental importância, dentro da perspectiva política e orante da liturgia, valorizar a linguagem visual e simbólica. Aliás, toda a liturgia é uma ação simbólico-sacramental. Nela ritualizamos aquilo que cremos, através de orações, cantos, gestos e ações simbólicas. Tudo o que fazemos na liturgia tem referência a uma realidade invisível que se torna palpável e visível através de mediações simbólicas.
As Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil também reafirmam a necessidade de “redescobrir o aspecto simbólico da liturgia, enfatizar o sentido do mistério e recuperar as dimensões de festa, alegria e esperança”.[14]
A dimensão política da liturgia transparece não só através de palavras, mas através da expressão simbólica e das ações rituais. De fato, os gestos e as ações rituais e toda a celebração são de algum modo modelos indutores de ações libertadoras na vida do cristão, da Igreja e da sociedade. [15]
Os gestos e as ações rituais são meios pelos quais se manifesta a atitude interior. Se nossa atitude interior for orante, isto é, se estivermos ‘ligados’ e se entramos no jogo simbólico-ritual da liturgia, consequentemente sentiremos necessidade de expressar o que se passa em nós através de sentimentos e atitudes orantes.
A liturgia será mais orante e terá um efeito político libertador, se soubermos, conservando a unidade substancial do rito romano, assumir uma verdadeira e sadia criatividade, renovação, adaptação e inculturação litúrgica.
 
h) Os cantos
A força libertadora do canto não está só na letra mais ou menos ‘politizada’ ou em sua melodia, mais ou menos alegre. A força libertadora do canto acontece quando ele nos ajuda a penetrar no mistério do amor de Deus. Juntando nossa voz à voz dos irmãos e irmãs em clima de festa e alegria, vamos entrando em sintonia com o mistério de Deus e conseguimos expressar sentimentos que não conseguimos expressar com palavras. Na verdade, o canto é uma das formas de ritualizar a palavra. “O canto surge como elemento do inefável, do mistério. O cantar toca o mistério sem pretender esgotá-lo, dizê-lo exaustivamente. Graças à sua musicalização, o canto dilata, amplia ilimitadamente o sentido da palavra e, desse modo, rastreia o inominável, o mistério”.[16] Por isso, não basta apenas cantar. É preciso cantar com o coração. É preciso cantar ‘no espírito’.
 
2. A dimensão política em alguns momentos da celebração eucarística
 
Até aqui foram evidenciadas algumas considerações gerais sobre o lugar da política na liturgia. Pretende-se agora analisar como a política pode “entrar” em alguns momentos específicos da celebração eucarística.
 
2.1. Os ritos iniciais
Os ritos iniciais têm a função de constituir a assembléia litúrgica. Eles são a porta de entrada para uma celebração libertadora. Ora, a assembléia precisa de certo tempo para “quebrar o gelo”, para se encontrar. Podemos imaginar como começam as recepções sociais nas quais participamos. É preciso aquecer o coração para que ele possa se abrir à escuta da palavra e à partilha eucarística. Uma acolhida mais demorada, um canto de alegria, um rito de mútua saudação, uma recordação da vida trazendo presente os fatos, os acontecimentos, as angústias e as comemorações ajudaria a criar um clima mais orante e ao mesmo tempo mais “colado” à vida da comunidade.
 
2.2 O rito penitencial
O ato penitencial é um dos momentos em que a dimensão política da liturgia tem sua maior relevância, não no sentido de acusar o mal que os outros tem feito, mas sim para expressar o reconhecimento dos próprios membros da comunidade dos males cometidos contra o bem comum. Esse reconhecimento inclui ainda o compromisso de superar divisões, injustiças, ódios e opressões. “Só podemos receber a reconciliação se estamos dispostos a dá-la; só podemos participar na eucaristia, se aceitamos o compromisso de nos reconciliar na vida”.
 
2.3. A liturgia da palavra
A liturgia da palavra é, na celebração eucarística, um dos momentos privilegiados onde a dimensão política emerge a partir da proclamação da palavra de Deus e a partir da confrontação desta palavra com a realidade do povo. “É o próprio Deus que, por meio da Sagrada Escritura, se dirige, de modo concreto, à comunidade local de hoje e, através da história humana contida no Antigo e no Novo Testamento, incita o homem que escuta e medita a praticar atos salvíficos para a consumação do reino de Deus. Em outras palavras, a finalidade da leitura da Escritura é levar o mundo de hoje a uma ação concreta: é preciso que o mundo de hoje se reconheça na Bíblia, a fim de converter-se e, assim, tornar-se uma comunidade evangélica”.[17] É um momento especial de diálogo entre Deus que fala através das leituras e o povo que responde através de salmos, cantos e aclamações.
“As leituras bíblicas serão lidas necessariamente tendo como pano de fundo a realidade atual, na qual Deus se revela e nos interpela. Devemos redescobrir os salmos e cânticos bíblicos como linguagem privilegiada para fazer subir até Deus os gritos e os clamores do povo injustiçado e sofredor, entregando com fé o seu destino nas mãos do Senhor”.[18]
 
2.4. A homilia
A palavra proclamada, não é um programa de ação política, mas ilumina o nosso compromisso social e político. A homilia é um momento especial que ajuda a situar as leituras proclamadas no seu contexto sócio-político-cultural original, mas também e, sobretudo, em nosso contexto sócio-político atual. Em outras palavras, a função da homilia é estabelecer uma ponte entre a experiência do povo da Bíblia e nossa vida hoje. O estabelecimento dessa ponte não pode, porém, ser de forma objetiva, neutra, como se o pregador fosse um repórter, mas de forma envolvente, testemunhal e vivencial. Na homilia é o próprio Cristo que fala na pessoa do ministro. É a boa notícia da salvação que está sendo anunciada.
Seria possível assegurar o caráter profético da homilia e, ao mesmo tempo, imprimir-lhe um caráter orante? [19] Acreditamos que sim. É possível, na homilia, unir linguagem profética e linguagem mística, contemplação e compromisso histórico. “A linguagem da contemplação reconhece que tudo vem do amor gratuito do Pai. A linguagem da profecia denuncia a situação, e suas causas estruturais, de injustiça e espoliação em que vivem os pobres da América Latina.
Neste sentido, o documento de Puebla diz que é preciso saber descobrir ‘os traços sofredores de Cristo, o Senhor, nos rostos marcados pela dor de um povo oprimido’.[20] Sem a profecia, a linguagem da contemplação corre o perigo de perder o mordente sobre a história na qual Deus opera e onde o achamos. Sem a dimensão mística, pode a linguagem profética estreitar demais o olhar e debilitar a percepção daquele que tudo faz novo. “Cantar e libertar, ação de graças e exigência de justiça. Eis o desafio de uma vida cristã que, superando possíveis fugas espiritualistas e eventuais reducionismos políticos, quer ser fiel ao Deus de Jesus Cristo”.[21]
Além do vocabulário simples, o modo de falar também é decisivo para a dimensão orante da homilia. Certamente um tom de voz calmo, sereno, dialogal terá muito mais efeito do que um tom agressivo e autoritário.
Sendo a homilia um momento especial para iluminar nosso agir político, nada melhor que a palavra possa ser partilhada e enriquecida com a participação da assembléia. “A manifestação, na assembléia, da diversidade complementar das respostas de fé constitui uma instância crítica insubstituível para o agir cristão, especialmente em nossos dias em que a diversidade das situações humanas acarreta políticas concretas muito diferentes, embora inspiradas no mesmo evangelho”.[22]
 
2.5. A oração universal
A oração universal dos fiéis é um dos momentos fundamentais da liturgia e da espiritualidade litúrgica. O motivo de nossa oração comunitária é rezar para que a salvação anunciada na liturgia da palavra, se torne realidade em nossa vida. O Missal Romano descreve a oração dos fiéis como momento em que a comunidade exerce seu ofício sacerdotal, sendo mediadora entre Deus e a humanidade. [23]
A oração dos fiéis é também um dos momentos fortes onde a dimensão política se faz presente. A assembléia, que por estar reunida já manifesta uma dimensão política, estabelece um diálogo amoroso com o Pai, pedindo, louvando, agradecendo, suplicando.
O momento da oração dos fiéis deveria ser um momento forte de súplica comunitária em comunhão com toda a humanidade. “Essa solidariedade com o grito dos outros, especialmente dos mais necessitados, corrige toda possível concepção mágica e alienante da oração, pois essa mesma solidariedade supõe um compromisso libertador. Isso faz parte da dinâmica da oração, cujo primeiro fruto não consiste em fazer saber a Deus nossas necessidades, mas em tomar consciência delas”.[24]
Para o momento das preces destacamos ainda as seguintes sugestões:
- O convite por parte do presidente da celebração já deveria indicar uma relação de igualdade e fraternidade.
- É claro que a dimensão política aparecerá de uma forma mais verdadeira e orante, se for a assembléia que, de uma forma simples, livre e espontânea, pede e suplica ao Pai a partir daquilo que brota do seu coração, e não daquilo que está escrito num folheto.
- O conteúdo de nossa oração comunitária deve brotar da recordação da vida, explicitada normalmente no início da celebração e do confronto e apelo da palavra anunciada e confrontada com a comunidade concretamente situada.
- A dimensão política está presente especialmente na resposta comum da assembléia: “Senhor escutai a nossa prece”, “Ouve, Senhor, o nosso clamor”. O pedido de um se torna pedido de toda a comunidade. A resposta comunitária é mais importante do que o pedido propriamente dito. Deus já sabe de que nós necessitamos. O importante é que o clamor que brota diariamente de milhões de homens reclamando justiça, liberdade e respeito pelos seus direitos fundamentais, chegue até os ouvidos de Deus de uma forma conjunta e orante.
Assim a oração nos impulsiona também para o compromisso com os irmãos. Se rezamos pelos sem-terra, nos comprometemos a entrar em solidariedade com eles. Do contrário, nossa oração não seria autêntica. É preciso “entrar em compaixão” para que nossa oração seja verdadeira.
- A dimensão política se mostra também presente na linguagem que usamos. Se nos dirigimos a Deus como se ele fosse um monarca, um castigador, vamos reforçando uma relação opressora. Ao contrário, se nos dirigimos a ele como um Deus amigo, pai e mãe e abrimos nosso coração para ele, vamos firmando uma relação libertadora. Certamente nossa oração será mais dialogal e orante, se nos dirigimos ao Pai chamando-o de ‘Deus Pai amoroso’, ‘Deus Pai misericordioso’, ‘Senhor Pai querido’...
 
2.6. A apresentação dos dons e a partilha dos bens
Os dons que colocamos sobre o altar têm um profundo significado social e político. Eles são frutos da terra e do trabalho das pessoas. São dons de Deus e também conquistas das pessoas. É o humano que se torna divino.
Também as coletas em dinheiro e em alimentos depositadas aos pés do altar para serem partilhadas com os pobres são a expressão viva da verdadeira liturgia: um serviço do povo em favor do povo.
 
2.7. A ação de graças e o louvor
O conteúdo do louvor e da ação de graças também revelam o caráter político da assembléia. “Dar graças é afirmar que a força libertadora do Cristo ressuscitado é maior que todas as escravidões deste mundo. É importante que a ação de graças, o fazer-eucaristia, não se refira somente ao passado histórico de Jesus e ao futuro escatológico, mas também a libertação pascal atual. Anunciar seus sinais presentes na assembléia litúrgica é necessário à esperança dos que lutam pela justiça do Reino”.[25] Assim quando celebramos o mistério pascal de Cristo a partir do referencial do pobre experimentamos a força transformadora da liturgia.
 
2.8. A comunhão eucarística
A comunhão eucarística é o momento da união mais íntima com Deus e com os irmãos que comem do mesmo pão. É nesta comunhão de vida que consiste nossa salvação, a plenitude do Reino. A assembléia que come na mesma mesa, o mesmo pão, torna-se um sinal da unidade da Igreja e a manifesta como sacramento de salvação do mundo. A comunhão eucarística é um sinal eloquente da partilha e da comunhão dos bens e sinaliza o mundo novo de justiça e fraternidade que precisa ser concretizado. [26]
 
Conclusão
A função da liturgia não é conseguir determinados fins políticos nem buscar a eficácia real dos ritos. A liturgia é ação simbólica. Assim, por exemplo, o abraço da paz ou o ato penitencial não resolvem todos os conflitos presentes da comunidade, mas são sinais e mediações de um processo de libertação.
“Para celebrar politicamente, é preciso ser capaz de admitir que a suprema política é, antes de tudo, a festa que nos faz viver acima dos nossos meios, é o mito que expressa o inaudito, é a utopia que coloca o impossível como necessário, é a poesia que diz o que não é dito, é o símbolo que faz o que não é feito”.
A celebração litúrgica, além de expressar uma visão social e política, também expressa nossa visão de fé. A opção da Igreja pelos pobres deverá, portanto, vir acompanhada de uma nova maneira de celebrar, seguindo o antigo adágio latino: ‘lex orandi, lex credendi’, ou seja, a lei da fé segue a lei da oração ou em outras palavras: rezamos aquilo que cremos. [27]
Seria louvável, portanto, que na liturgia, além de proclamarmos as verdades fundamentais da nossa fé cristã, pudéssemos rezar, ritualizar e experimentar verdadeiramente aquilo que mais acreditamos, buscamos e lutamos: uma nova Igreja e uma nova sociedade.
“É importante que toda celebração manifeste ao mesmo tempo o “já” da libertação inaugurada e o “ainda não” da salvação universal. É essa condição para que a liturgia não somente conteste as forças adversas, mas não cesse de contestar o engajamento político dos cristãos. A liturgia anuncia este mundo possível que é a nova Jerusalém, sem temor de evocar, na mesma celebração e por fatos da atualidade, o que torna impossível este ideal. Do choque desse ‘impossível’ com esse ‘possível’ surge um apelo para ultrapassarmos o fatalismo com o Espírito do Ressuscitado... É sobretudo celebrando o mistério de nossa libertação em Cristo que somos levados a contestar tudo o que aliena, tudo o que impede os homens de serem eles mesmos”.[28]
Certamente, como diz Arturo Paoli, “nascerá uma nova liturgia, a partir da estrada empoeirada calçada pelos pés descalços dos pobres”.[29] Acreditamos que em parte esta nova liturgia já está acontecendo. É preciso, no entanto, continuar a caminhada com a certeza que:
“Deus chama a gente pra um momento novo,
de caminhar junto com seu povo,
É hora de transformar o que não dá mais:
Sozinho isolado, ninguém é capaz.
Por isso, vem! Entra na roda co’a gente, vem,
Você é muito importante! Vem!”
 
Pe. Egídio Balbinot
 
 
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[1]   Cf. CNBB, Animação da vida litúrgica no Brasil, 50.
[2]   Victor CODINA, Pressupostos para uma pastoral sacramental, hoje. In: Victor CODINA et alii, Os sacramentos hoje: teologia e pastoral, p. 20.
[3]   Joseph GELINEAU, Celebrar a libertação pascal, in Concilium1974/2, p. 248.
[4]   Cf. Ione BUYST, Como estudar liturgia: princípios de ciência litúrgica, p. 98.
[5]   Godfried, DANNEELS, A obra de um outro, in: 30 dias, nº 1, janeiro de 1996, p. 48.
[6]   Marcelo de Barros SOUZA, A central única de todos os excluídos: a liturgia cristã e sua dimensão política libertadora, in: Revista de Liturgia, 134, mar/abr 1996, p. 8.
[7]   Joseph GELINEAU, Celebrar a libertação pascal, in: Concilium 1974/2, p. 255
[8]   André AUBRY, A festa dos povos e o estilhaçamento da sociedade: prática popular e prática litúrgica. In: Concilium 162 (2), 1981, p. 88.
[9]   O documento da CNBB, nº 11, ‘Diretório para missas com grupos populares’ também enfatiza este aspecto quando diz: “O rito da Missa do povo simples deve espelhar o caráter popular de sua linguagem, sua religiosidade própria, suas lutas e vitórias, sob pena de não atingir o coração do povo” (cf. item 2.3.2).
[10]   Clodovis BOFF, Como trabalhar com a massa, in: CEBs: Vida e esperança nas massas (texto-base do 9º Intereclesial de CEBs), p. 153.
[11]   Ibidem, p. 152.
[12]   Ibidem, p. 43.
[13]   Centro de Liturgia, Liturgia em tempo de opressão, p. 44.
[14]   CNBB, Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil - 1995-1998, nº 273.
[15]   Cf. Anotações do autor da exposição de Gregório LUTZ, sobre o tema ‘Onde e como a política cabe dentro da liturgia’, por ocasião da l0ª semana de liturgia realizada de 14 a 18 de outubro de 1996, na Faculdade Nossa Senhora da Assunção em São Paulo.
[16]   Pablo ARGÁRATE, A Igreja celebra Jesus Cristo, p. 102.
[17]   Herman SCHMIDT, Normas políticas de comportamento na liturgia hodierna, in Concilium 92 (2), 1974, p. 169.
[18]   Marcelino SIVINSKI & Ione BUYST, Liturgia, oração e compromisso libertador. In: Revista de Liturgia 88, jul./ago. de 1988, p. 102.
[19]   Sobre a dimensão orante da homilia cf. Frei José Ariovaldo da SILVA, Homilia: uma entrada para o mistério da vida; Ione BUYST, Homilia, experiência orante; Silde COLDEBELLA, Leitura em mutirão, In: Revista de liturgia 107, set./out. 1991.
[20]   CELAM, A evangelização no presente e no futuro da América Latina 31 e 32.
[21]   Gustavo GUTIÉRREZ, Falar sobre Deus. In: Concilium 191 (1), 1984, p. 49.
[22]   Joseph GELINEAU, Celebrar a libertação pascal, in: Concilium 1974/2, p . 256.
[23]   Cf. IGMR, 45 e 47.
[24]   Victor CODINA, Aprender a rezar pondo-se no lugar dos pobres, uma necessidade cristã. In: Concilium 179 (9), 1982, p. 10.
[25]   Joseph GELINEAU, Celebrar a libertação pascal, in: Concilium 1974/2, p . 256.
[26]   Cf. Anotações a partir da reflexão proposta pelo Pe. Gregório Lutz por ocasião da 10ª Semana de Liturgia realizada na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo.
[27]   Cf. Ione BUYST & Ernesto CARDOSO, Liturgia cristã. In: Tereza CALVALCANTI et alii, Curso de Verão Ano IV, p. 59.
[28]   Joseph GELINEAU, Celebrar a libertação pascal, in: Concilium 1974/2, p. 258.
[29]   Arturo PAOLI, Liturgia das estradas, in: Revista de Liturgia 135, maio/jun. de 1996, p. 5.


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