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Fonte: Católico.org
 
 
 
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UM NOVO MODO DE SER E ESTAR

Jesus não é um escriba judeu nem um sacerdote do tempo de Jerusalém. Não é lhe próprio ensinar uma doutrina religiosa, nem explicar a Lei de Deus, nem assegurar o culto de Israel. Jesus é um profeta itinerante, oriundo da Galiléia, que anuncia um acontecimento, algo que está ocorrendo e que pede escuta e atenção, pois é algo que pode mudar tudo. Ele já o está experimentando e convida a todos a partilhar esta experiência: Deus está tratando de introduzir-se na história humana. Temos que mudar e vivê-lo de maneira totalmente diferente. Assim sintetiza Marcos: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrendei-vos e crede no Evangelho” (Mc1,15).

Todos os pesquisadores pensam que isto que Jesus chama “reino de Deus” (malkutá d’alaha) é o coração de sua mensagem e a paixão que animou toda a sua vida. O surpreendente é que Jesus nunca explica o que é o reino de Deus. O que faz é sugerir como atua Deus e como seria o mundo se houvesse gente que atuasse como Ele. Podemos dizer que “reino de Deus” é a vida tal como Deus a quer construir. Pode-nos parecer importante saber o que temos de pensar de Deus, como cumprir seus mandatos, como oferecer-lhe um culto agradável. Jesus, por sua parte, só buscava uma coisa: que houvesse na terra homens e mulheres que começassem a atuar como atua Deus. Esta era sua obsessão: como seria a vida se a gente se parecesse mais com Deus?

Mas isso nos obriga a fazer-nos não poucas perguntas: como atua Deus? Como atuou Jesus? Como entendeu sua vida? Que foi o importante para ele? Que significa exatamente atuar como Deus, seguindo os passos de Jesus?

 

I. DEUS É COMPAIXÃO.

 

Hoje, quase todos concordam. Jesus de Nazaré foi um homem, talvez o único, que viveu e comunicou uma experiência sadia de Deus, sem desfigurá-la com os medos, ambições e fantasmas que, comumente, projetam as diversas religiões sobre a divindade.

Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante, esquecido de suas criaturas ou interessado por sua honra, sua glória ou seus direitos. No centro de sua experiência religiosa não nos encontramos com um Deus “legislador”, tentando governar o mundo por meio de leis, nem com um Deus “justiceiro”, irritado ou irado ante o pecado de seus filhos.

Para Jesus, Deus é compaixão. “Entranhas”, diria Ele, rahamim. Esta é sua imagem preferida. [1] A compaixão é o modo de ser de Deus, sua primeira reação ante suas criaturas, sua maneira de ver a vida e de olhar as pessoas, o que move e dirige toda sua atuação. Deus sente em relação a suas criaturas o que uma mãe sente pelo filho que leva em seu ventre. Deus nos leva em suas entranhas.

As parábolas mais belas que saíram dos lábios de Jesus e, sem dúvida, as que mais elaborou em seu coração foram as que narrou para fazer intuir em todos a incrível misericórdia de Deus.

A mais cativadora é, talvez, a do bom pai (Lc15,11-32).[2] Os que a escutaram pela primeira vez  ficaram certamente surpreendidos. Não era isso o que eles ouviam dos escribas ou dos sacerdotes. Assim será Deus? Como um pai que não guarda para si sua herança, que não anda obcecado pela moralidade de seus filhos, que espera sempre aos perdidos, que ‘estando ainda longe’ vê o seu filho, se lhe “comove as entranhas”, perde o controle, põe-se a correr, o abraça e o beija efusivamente como uma mãe, interrompe sua confissão para poupar-lhe mais humilhações e o restaura como filho. Será essa a melhor metáfora de Deus: um pai comovido até às entranhas, acolhendo a seus filhos perdidos e suplicando aos irmãos a acolhê-los com o mesmo carinho? Será Deus um pai que busca conduzir a história dos homens até uma festa final onde se celebre a vida e a libertação de tudo o que escraviza e degrada ao ser humano? Jesus fala de um banquete abundante, fala de música e de dança, de filhos perdidos que despertam a compaixão do pai, de irmãos convidados a acolher-se. Será esse o segredo último da vida? Será isso o reino de Deus? Jesus contou em outra ocasião uma parábola: surpreendente e provocativa sobre o dono de uma vinha que queria trabalho e pão para todos (Mt 20,1-15). [3] Contratou a diversos grupos de trabalhadores. Aos primeiros, às seis da manhã, depois às nove, mais tarde ao meio-dia, às três da tarde e até às cinco, quando só faltava uma hora para terminar a jornada de trabalho. Surpreendentemente, a todos lhes pagou um denário: o que era suficiente para viver durante um dia. Esse homem não pensa nos méritos de uns e de outros, somente que todos possam cear essa noite com suas famílias. Quando os primeiros protestam, essa é sua resposta: “Não tenho o direito de fazer o que quero com o que é meu? Ou estás com ciúme porque sou bom?”

O desconcerto foi geral. Que estava sugerindo Jesus? É que para Deus não contam os méritos? É que Deus não funciona com os critérios que nós manejamos? Essa maneira de entender a bondade de Deus não rompe com todos os nossos esquemas religiosos? Que dirão os mestres da Lei e que podem dizer os moralistas de hoje? Será verdade que, desde suas entranhas de misericórdia, Deus, mais que fixar-se em nossos méritos, está olhando como responder a nossas necessidades? Será tão bom?

Na lembrança de seus seguidores ficou gravada outra parábola desconcertante sobre um fariseu e um publicano que subiram ao Templo a orar (Lc 18,10-14 a). O fariseu reza de pé e seguro. Sua consciência não o acusa de nada. Cumpre fielmente a Lei e até mais do que ela exige. Não é hipócrita. Diz a verdade. Por isso dá graças a Deus. Se esse homem não é santo, quem o será? Seguro que conta com a benção de Deus. O publicano se retira a um canto. Não se atreve nem a elevar seus olhos do chão. Sabe que é pecador, mas não pode mudar de vida. Esse é seu problema. Por isso, não promete nada. Não pode deixar seu trabalho nem devolver o que roubou. Só lhe resta abandonar-se à misericórdia de Deus: “Senhor, tem compaixão de mim, pois sou pecador”. Ninguém queria estar em seu lugar. Deus não pode aprovar sua conduta. Inesperadamente, Jesus conclui sua parábola essa afirmação: “Eu vos digo que o publicano desceu para casa justificado, e o fariseu não”. Jesus pega a todos de surpresa. Imediatamente abre-se para eles um mundo novo, que rompe todos seus esquemas. Como pode Deus não reconhecer o piedoso e, pelo contrário, conceder sua benção ao pecador? Será que todos nós, afinal, temos de nos abandonar a sua misericórdia? Será verdade que o decisivo não é a prática religiosa, senão a misericórdia insondável de Deus? Será Deus um mistério incrível de compaixão que só atua movido por sua ternura para quem se nele confia?

 

II. SEDE COMPASSIVO COMO VOSSO PAI É COMPASSIVO.

 

Essa experiência da compaixão de Deus foi o ponto de partida para a atuação revolucionária de Jesus e o levou a introduzir na história da humanidade um novo princípio de atuação: a compaixão. A organização religiosa e sócio-política do povo judeu e a espiritualidade de todos os grupos tinham por base uma exigência radical que aparecia formulada de maneira precisa no velho livro do Levítico: “Sede santos porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo” (Lev 19,2). O povo devia imitar a Deus Santo do Templo, um Deus que rechaçava aos pagãos, os pecadores e impuros, e abençoava o seu povo eleito, aos justos e aos puros. A santidade era a qualidade essencial de Deus, o princípio de orientação para a conduta do povo eleito. O ideal é ser santo como Deus.

No entanto, essa santidade de Deus entendida como “separação do impuro” e do não santo, gerava uma sociedade discriminatória e excludente. [4] O povo judeu busca sua identidade santa e pura excluindo as nações impuras e pagãs. Dentro do povo eleito, sacerdotes gozam de um traço de pureza superior aos demais, pois estão a serviço do Templo onde habita o Santo de Israel. Os observadores da Lei desfrutam da benção de Deus, enquanto os pecadores são objeto de sua ira. Os homens pertencem a um nível superior de pureza sobre as mulheres, suspeitas de impureza por sua menstruação e partos. Os sãos estão mais próximos de Deus que os leprosos, cegos, paralíticos ou eunucos, excluídos do acesso ao Templo. Essa busca de santidade erguia fronteiras, gerava discriminações e despertava ressentimentos. Não promovia comunhão, fraternidade e mútua acolhida. Jesus percebeu tudo isso. Essa visão religiosa não respondia a sua experiência de um Deus compassivo. E com uma lucidez e uma audácia surpreendentes introduziu naquela sociedade uma alternativa que o transformava por inteiro: “Sede compassivo como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36).

É a compaixão, e não sua santidade, o princípio que há de inspirar a conduta humana. Jesus não nega a santidade de Deus, mas o que qualifica essa santidade não é a separação do impuro, o rechaço do não-santo. Deus é grande e santo, não porque rechaça e exclui aos pagãos, pecadores e impuros, mas porque ama a todos sem excluir ninguém de sua compaixão. Por isso, a misericórdia não é, para Jesus, uma virtude a mais, mas a única maneira de ser como é Deus.

O único modo de olhar o mundo como o vê Deus, a única maneira de sentir as pessoas como as sente Deus, a única forma de reagir ante o ser humano como reage Deus.

 

III. JESUS, PRIMEIRA TESTEMUNHA DA COMPAIXÃO DE DEUS.

Jesus foi o primeiro a viver totalmente a partir da compaixão de Deus, desafiando claramente o sistema de santidade e pureza que predominava naquela sociedade. Na raiz de sua atividade curadora e inspirando toda sua atuação com os enfermos está sempre seu amor compassivo[5]. Jesus se aproxima dos que sofrem, alivia sua dor, toca aos leprosos, libera aos possuídos por espíritos malignos, os resgata da marginalização e lhes devolve à convivência. Jesus sofre al ver a distância que há entre o sofrimento destes homens e mulheres enfermos, desnutridos e estigmatizados pela sociedade, e a vida que Deus quer para todos eles. Jesus não as cura para provar sua condição divina ou para comprovar a veracidade de sua mensagem. O que move a Jesus é a compaixão. Quer que, desde já, estes enfermos experimentem em sua própria carne a misericórdia de Deus.

O povo captou prontamente a novidade que Jesus estava introduzindo. Sua atuação era muito diferente à de João Batista. A missão do Batista estava pensada e organizada em função do pecado. Era sua grande preocupação: denunciar os pecados daquela sociedade e purificar a todos que se achegavam do Jordão para receber seu batismo para o “perdão dos pecados”. A atuação de Jesus era diferente, pois via tudo a partir da compaixão de Deus. O que o preocupava, antes de nada, era o sofrimento que destruía, humilhava e marginalizava àquelas pessoas massacradas. Jesus não caminha pela Galiléia buscando pecadores para convertê-los de seus pecados, mas aproximando-se dos enfermos e endemoninhados para libertá-los de seus sofrimentos.

Sua missão é mais terapêutica que “moral” ou “religiosa”. Não é que não o preocupe o pecado, mas que, para ele, o pecado que mais se opõe a Deus é precisamente causar sofrimento ou tolerá-lo com atitude indiferente.

Rapidamente se aproxima de Jesus todo tipo de pessoas massacradas e desvalidas. O profeta da misericórdia de Deus atraía, sobretudo, aos que vivam mergulhados na miséria. Não são pobres. Na Galiléia a imensa maioria da população era pobre, pois lutava dia a dia pela sobrevivência, mas, ao menos, tinha um pequeno terreno ou um trabalho para assegurar o sustento.

Os que rodeiam a Jesus são os despossuídos de tudo, os que não têm o necessário para viver. [6] São um grupo facilmente reconhecíveis. A maioria, desempregados sem teto. Não sabem o que é comer carne nem pão de trigo. Cobrem-se com farrapos e quase sempre andam descalços. Entre eles, há mendigos que andam de povoado em povoado, diaristas sem trabalho fixo e camponeses foragidos de seus credores. Muitas são mulheres: viúvas que não puderam casar-se de novo, esposas estéreis repudiadas por seus maridos, prostitutas obrigadas a buscar clientes pelos povoados para alimentar a seus filhos. Todos têm um traço em comum: vivem em estado de miséria da qual já não podiam escapar. Não têm quem os defenda. São o “material sobrante” daquela sociedade. Vidas sem futuro. [7] Jesus se une a eles, começa a se vestir e a calçar como eles, os acolhe e os defende. De seus lábios começa a escutar uma linguagem nova e desconhecida: “Felizes os que não têm nada, porque o rei de vocês é Deus; felizes os que agora passam fome porque serão saciados; felizes os que agora choram porque rireis” [8] Não é uma burla. Não é cinismo. Aquela miséria que os condena à fome, à enfermidade e ao pranto não tem sua origem em Deus. Ao contrário, aquilo é um escândalo para ele. Deus os quer ver saciados, felizes e rindo. Aqueles que não interessam a ninguém interessam a Deus. Os que sobram entre os homens têm um lugar privilegiado em seu coração.Os que não têm ninguém que os defenda têm a Deus como Pai. A mensagem e a atuação de Jesus não significam de imediato o fim da fome e da miséria, mas sim uma dignidade indestrutível de todas as vitimas de abusos e atropelos. Todos hão de saber que esses são os filhos e filhas prediletos de Deus. Nunca em nenhuma parte se construirá a vida tal como a quer Deus se não é libertando a esses homens e mulheres da miséria. Nenhuma religião será abençoada por Deus se não introduz no mundo justiça para eles.

Mas o que mais escandalizava de Jesus não era vê-lo em companhia de gente miserável e indesejável, mas observar que se sentava a comer com cobradores de impostos, pecadores e prostitutas. Jesus não excluía a ninguém, atuava movido pela compaixão de Deus, seu Pai. Os evangelhos recolhem fielmente a surpresa e as acusações dos mais hostis: “O quê? Ele come com os publicanos e pecadores?”; “Ele é um comilão e beberrão, amigo dos pecadores” (Mc 1,16, Fonte Q (mt 11,9 = Lucas 7,34). O assunto era explosivo. Sentar-se à mesa com alguém era e é um sinal de confiança e amizade. Não se come com qualquer um. O que Jesus fazia era impensável em alguém considerado por todos como um “homem de Deus”. Como podia sentir amigo de publicanos e prostitutas? No entanto, Jesus não excluía ninguém. Não importava ser santo nem puro, mulher honrada ou prostituta. Não era necessário limpar as mãos. Todos podiam contar com sua amizade. Até os pecadores que viviam afastados de Deus. Jesus não excluía ninguém. Ele atuava movido pela compaixão de Deus. Aqueles amigos e amigas são filhos “perdidos” que não acertam retornar a Deus pelo caminho da Lei. Jesus lhes oferece a amizade e o perdão de Deus antes que mudem e se convertam. Nunca se havia visto algo parecido. Sua mensagem ressoava assim: “Quando se encontrarem julgados pela Lei, se sintam compreendidos por Deus; quando se encontrarem rechaçados pela sociedade, sintam sobre vocês o perdão inesgotável de Deus. Vocês não o merecem. Ninguém o merece. Mas Deus é assim: misericórdia, amor e perdão”. Ninguém realizou nessa terra em nome de Deus um sinal mais carregado de compaixão e de esperança.

 

IV. A PARÁBOLDA DO BOM SAMARITANO (Lc 10, 30-36).

Talvez essa seja a parábola mais provocativa e a que mais bem sugere a revolução introduzida por Jesus a partir de sua experiência da compaixão de Deus. Jesus fala de um homem assaltado e abandonado meio morto na encruzilhada de um caminho solitário. Afortunadamente, aparecem pelo caminho dois viajantes: primeiro um sacerdote e, em seguida, um levita. Vêm do Templo, depois de realizar seu serviço cultual. O ferido, cheio de esperança, os vê chegar: são de seu próprio povo; representam a Deus santo no Templo; sem dúvida terão compaixão dele. Não é assim. Os dois deram uma volta e passaram longe do homem assaltado. Aparece no horizonte um terceiro viajante. Não é sacerdote nem levita. Nem pertence ao povo eleito. É um odiado samaritano, membro de um povo inimigo. O ferido, cheio de medo, o vê chegar. Pode-se esperar o pior. No entanto, o samaritano “teve compaixão”[9] e se aproximou, fez-se próximo. Movido por sua compaixão fez por aquele homem todo o que pode: curou suas feridas, tratou dele e o montou sobre seu cavalo, o levou a uma pousada, cuidou dele e pagou tudo o que poderia gastar ainda.

A surpresa dos ouvintes não podia ser maior. A parábola rompia todos os esquemas e discriminações entre amigos e inimigos, entre povo escolhido e gente estranha e impura. Será verdade que a compaixão não pode chegar, nem do Templo nem dos canais oficiais da religião, mas de um inimigo proverbial? Não havia dúvida. Jesus olhava a vida desde a encruzilhada, com os olhos das vítimas necessitadas de ajuda. Para ele, a melhor metáfora de Deus era a compaixão pelos que sofrem. E a única maneira de ser como Deus e de atuar de maneira humana era atuar como aquele samaritano.

A parábola de Jesus introduzia uma reviravolta total. Os representantes da religião passam de longe quando avistam o ferido. O odiado inimigo é o salvador. Com a compaixão caem as barreiras. Até um inimigo tradicional, renegado por todos, pode ser instrumento da compaixão de Deus. Será que temos de reordenar tudo a partir da compaixão? Teremos que nos esquecer dos preconceitos e inimizades seculares, deixar de lado ódios e sectarismos, eliminar fronteiras e discriminações? Lucas aplicou muito bem a mensagem da parábola. [10] A verdadeira postura não é perguntar-se como o escriba: “Quem é meu próximo?”, até onde chegam minhas obrigações para com os demais? A verdadeira atitude de quem vive movido pela compaixão é perguntar-se: “Quem está necessitado de que eu me aproxime e me faça seu próximo? Quando alguém vive a partir da compaixão de Deus, toma com toda a seriedade a todo ser humano que sofre, qualquer que seja sua raça, seu povo ou sua ideologia. Não se pergunta a quem tenho que amar, mas quem necessita que me faça próximo. Todo ferido que encontro na encruzilhada de meu caminho é meu próximo. Só a partir da compaixão se constrói o reino de Deus.

 

V. O PRINCÍPIO-MISERICÓRDIA.

A linguagem da misericórdia pode ser perigosa e ambígua. Pode sugerir um sentimento de compaixão e ficar reduzido a ter um coração compassivo, sem o acompanhamento de um compromisso prático; pode ficar em fazer “obras de misericórdia” em um momento ou outro, sem abordar as causas concretas do sofrimento e das injustiças; pode entender-se como uma atitude paternalista em relação às necessidades de alguns indivíduos, sem reagir frente a uma sociedade que funciona sem misericórdia. Para evitar mal-entendidos e reducionismos, o teólogo Jon Sobrino propôs falar de “princípio-misericórdia”, isto é, de um principio interno que está na origem de nossa atuação, que permanece sempre presente e ativo em nós, que imprime uma direção a todo nosso ser e que vá configurando todo nosso estilo de viver.[11]

Para entender melhor tudo isto, podemos diferenciar os seguintes elementos. Em primeiro lugar, para sermos didáticos, se dá uma interiorização do sofrimento alheio, deixo que penetre em minhas entranhas, em meu coração, em meu ser inteiro, o faço meu de alguma maneira, me dói a mim. Em um segundo momento, esse sofrimento interiorizado, a Igreja deve estar em um lugar bem preciso: na encruzilhada, junto aos feridos que me chegaram até o mais íntimo de mim, provoca em mim uma reação, se converte em ponto de partida de um comportamento ativo e comprometido. Por último, essa reação se vai concretizando em atuações e compromissos diversos orientados a erradicar esse sofrimento ou, pelo menos, aliviá-lo.

Isto é sempre o primeiro e o último no seguidor de Jesus. Nada há de mais importante. Teremos que fazer muitas coisas ao longo de nossa vida, mas a compaixão há de estar no transfundo de tudo. Nada nos pode dispensar. Nada pode justificar a indiferença diante do sofrimento alheio. A compaixão há de configurar tudo o que constitui nossa vida: nossa maneira de olhar as pessoas e de ver o mundo; nossa maneira de relacionarmos e de estar na sociedade, nossa maneira de entender e de viver a fé cristã.

A parábola do bom samaritano termina, segundo Lucas, com um breve diálogo entre Jesus e o mestre da Lei. Jesus lhe faz uma pergunta: “Quem desses três te parece que foi próximo do que caiu nas mãos dos assaltantes?” O escriba responde: “O que teve misericórdia dele”. Jesus arremata: “Vá e faze tu o mesmo”. Esta é a parábola que temos de escutar todos: não dar voltas, abrir os olhos, ver tantos homens e mulheres assaltados, roubados, golpeados, abandonados, meio mortos nos mil caminhos da vida. Aproximarmo-nos das encruzilhadas, levantar os feridos, viver curando aos que sofrem.

 

VI. RUMO A UMA IGREJA SAMARITANA

Para a Igreja é importante encontrar seu lugar na sociedade. O lugar autêntico desde o qual deve cumprir sua missão evangelizadora. É evidente que a Igreja de Jesus não pode viver fechada em si mesma, preocupada só com seus problemas, pensando exclusivamente em seus interesses. Há de estar em meio ao mundo, mas não de qualquer maneira. Se é fiel a Jesus e se deixa inspirar pelo princípio-misericórdia, a Igreja há de estar em um lugar muito preciso: aí onde se produz sofrimento, aí onde estão as vítimas, os empobrecidos, os maltratados pela vida ou pela injustiça dos homens, as mulheres golpeadas e atemorizadas por seus companheiros, os estrangeiros sem documentos, os que não encontram luar nem na sociedade nem no coração das pessoas. Para dizer em uma só palavra, há de estar na encruzilhada, junto aos feridos. Desde suas origens, na Igreja tem havido muitos homens e mulheres a serviço dos pobres e necessitados, tratando de aliviar a dor e a necessidade de quem pouco podia esperar de uma sociedade ainda pouco organizada e sem serviços sociais. Em vinte séculos de cristianismo surgiram na Igreja congregações religiosas, associações, iniciativas a favor dos últimos: enfermos, pobres, sem casa, peregrinos, crianças abandonadas, prostitutas, vítimas de epidemias, leprosos... Ainda hoje é imensa a atividade dos cristãos tanto em terras de missão como entre os povos mais desenvolvidos, tanto em instituições eclesiais como em organismos e plataformas de outra natureza. Eles são o rosto compassivo da Igreja, o melhor que os cristãos temos.

Mas não é suficiente. Temos de trabalhar para a que a Igreja como tal esteja configurada na sua totalidade pelo princípio-misericórdia. A Igreja teria que fazer-se notar por ser o lugar de onde se pode observar a reação mais livre, mais audaz e mais intensa frente ao sofrimento que há no mundo. O lugar mais sensível e mais comprometido ante todas as feridas físicas, morais e espirituais dos homens e mulheres de hoje. Terá que fazer muitas outras coisas, mas, se a Igreja não está estruturada pela compaixão, tudo o que faça será irrelevante e poderá ser, inclusive, perigoso, pois a desviará facilmente de sua missão de introduzir no mundo a compaixão de Deus. O princípio-compaixão é o único que poderá fazer a Igreja de hoje mais humana e mais acreditável. Que pode significar hoje em nossa cultura uma palavra magisterial sobre o sexo, a homossexualidade, a família, a mulher ou os diferentes problemas da vida, sorte sem compaixão para os que sofrem? Para que uma teologia acadêmica, se não nos desperta da indiferença e não introduz na Igreja e na cultura moderna mais compaixão? Para que insistir na liturgia se o incenso e os cânticos nos impedem ver o sofrimento e ouvir os gritos dos que sofrem?

A Igreja será digna de fé se atua movida pela compaixão para com o ser humano, pois isto é precisamente o que mais se encontra em falta no mundo atual. Viver da compaixão não é nada fácil nem para a Igreja institucional nem para as comunidades de nossas paróquias, nem para a hierarquia nem para os cristãos em geral. Não é fácil nem para os que se sentem “progressistas” nem para os que se fecham no passado. Daí a urgência de escutar uma e outra vez a convocação: “Sede compassivos como o vosso Pai”.

 

VII. RUMO A UMA CULTURA ANIMADA PELA COMPAIXÃO.

Que é, em definitivo, o que Jesus queria introduzir no mundo? Que significa para Jesus “buscar o Reino de Deus e sua justiça”? (Mt 6,33). Creio que podemos resumir assim. Deus é, antes de tudo, um mistério de compaixão para suas criaturas. O decisivo para a história humana é agora acolher, introduzir e desenvolver esta compaixão. Não basta uma nova ordem de coisas mais justa segundo a visão de justiça que têm os poderes econômicos, políticos e religiosos, quase sempre orientados para seus próprios interesses. Há que se falar de justiça sim, mas de uma justiça que nasce da compaixão e que introduz no mundo uma nova dinâmica e uma nova direção. A compaixão dirige e impulsiona tudo para uma vida mais digna para os últimos.

Esta é a primeira tarefa dos seguidores de Jesus hoje e sempre. Isto é acolher o reino de Deus: colocar os povos, as culturas, às políticas e as religiões olhando para a dignidade dos últimos. Não há progresso humano, não há política progressista, não há religião verdadeira, não há proclamação responsável dos direitos humanos, não há justiça no mundo se não é nos aproximando aos últimos com a seriedade da compaixão de Deus, Se, distraída por outras questões ou interesses, a Igreja se esquece dos últimos, nessa mesma medida se vai distanciando do seu Senhor.

Vou terminar recordando uma parábola que podemos ler no evangelho de Mateus (Mt. 25,31-46). [12] Tal como chegou até nós, não é fácil reconstruir o relato original de Jesus, mas nos permite captar a revolução que Jesus introduziu na história. A parábola é, na realidade, uma descrição grandiosa do veredicto final de todas as nações. Ali estão pessoas de todas as raças e nações, de todas as culturas e religiões, as gerações de todos os tempos. Todos irão escutar a palavra final que esclarecerá tudo.

Dois grupos vão emergindo daquela multidão. Uns são chamados a receber a bênção de Deus para herdar seu Reino; a outros se lhe convida a afastar-se. Cada grupo se dirige para o lugar que eles mesmos escolheram. Uns reagiram com compaixão ante todos os necessitados; os outros viveram indiferentes diante de seu sofrimento. O que vai decidir a sorte não é sua religião nem sua piedade. Simplesmente, uns viveram movidos pela compaixão, outros não.

Na parábola se fala de seis situações de necessidades básicas. Não são casos irreais. São situações que acontecem em todos os povos e em todos os tempos. Em todas as partes há famintos e sedentos; há imigrantes e desnudos; enfermos e encarcerados. Não se pronunciam grandes palavras como “justiça” e “solidariedade”. Se fala de comida, de roupa, de algo de beber, um teto para resguardar-se. Não se fala também de “amor”, mas de coisas tão concretas como “dar”, “acolher”, “visitar”, “acudir”. O decisivo não pé uma teoria nobre e sublime, mas a compaixão que nos leva a ajudar a quem sofre e necessita de nossa ajuda.

A salvação humana está em ajudar aos desgraçados do mundo a viver uma vida mais humana e digna. A perdição, pelo contrário, está na indiferença diante do sofrimento. É o grito de Jesus à humanidade, sua mensagem proclamada e vivida até o fim. “Sede compassivos como vosso Pai”.

A partir de Jesus há algo muito claro. Nunca em nenhuma parte se construirá a vida como a quer Deus se não é libertando aos que sofrem de sua miséria e humilhação. Nenhuma religião será abençoada por Deus se não introduz para os que sofrem a justiça que brota da compaixão.

Para Jesus, uma humanidade constituída por nações, instituições ou pessoas comprometidas em alimentar aos famintos, vestir aos desnudos, acolher aos imigrantes, atender aos enfermos e visitar aos presos, é o melhor reflexo do coração de Deus e a melhor concretização de seu reino.

 

Fonte: "Jesus y la Misericordia" - José Antonio Pagola

Diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de San Sebastián

Vida Nueva, de 06 de Outubro de 2007, nº 2.583

 

Tradução de Pe. Manoel Godoy

Abril de 2008

 



[1] Emprego indistintamente os termos “misericórdia” e “compaixão”. Em geral, prefiro falar de “compaixão”, pois sugere maior proximidade (padecer com o que sofre). “Ter misericórdia” pode fazer pensar em uma relação que se estabelece com quem está abaixo.

[2] É um erro chamar essa parábola de “filho pródigo”. A figura central é o pai.

[3] É um erro chamá-la parábola dos “trabalhadores da vinha”. O verdadeiro protagonista é o proprietário da vinha. Podemos chamá-la de “bom empregador” ou de “patrão que queria pão para todos”.

[4] Assim aparece no Código de Santidade (Lev 17-26).

[5] Os evangelhos assinalam constantemente que Jesus curava “movido por compaixão”. Empregam o verbo “splanchnízomai” que, literalmente, significa que a Jesus “estremeciam-lhe as entranhas” quando via os enfermos sofrer.

[6] Os evangelhos não falam de “penes”, o pobre que vive de um trabalho duro. Fala de “ptchoi”, os mendigos que não têm do que viver.

[7] Lenki os chama o setor “expansivo”, os prescindíveis, os que estão de sobra.

[8] Lc 6,20-21. Estas três bem-aventuranças vêm de Jesus. Esta versão de Lucas é mais autêntica que a de Mateus 5,3-11, que lhes deu um caráter mais espiritual, acrescentando outras bem-aventuranças.

[9] Jesus utiliza o mesmo termo para falar da acolhida do pai do filho pródigo e da atuação do samaritano (“comoveu-se”).

[10] Lucas converteu a parábola de Jesus sobre o reino de Deus em uma história exemplar na qual Jesus responde a um doutor da lei que lhe pergunta: “Quem é meu próximo?”.

[11] Jon Sobrino. O princípio-misericórdia. Descer da cruz aos povos crucificados. Paulinas, 2007.

[12] Essa parábola é chamada tradicionalmente de parábola do “juízo final”. É melhor falar de “a separação das ovelhas dos cabritos”.



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