| Seja bem-vindo! Hoje é
 
 
Acompanhe o santo do dia
Fonte: Católico.org
 
 
 
Home
Pároco
Atendimento na Paróquia
Estudos litúrgicos
Curiosidades
Catedral Sto Antônio
Pastorais
Regiões Pastorais
Padroeiro
Orientações Pastorais
Orações
Estudos e Reflexões
Espaço Litúrgico
Mensagens
Folheto Litúrgico
Contato
 
. : Catedral Santo Antônio :.
O novo rosto do amor - Pedrinho Guareschi

Introdução

   Cada vez mais o termo solidariedade invade os noticiários dos meios de comunicação e se torna uma espécie de palavra mágica que, uma vez dita, supõe-se entendida por todos, e entendida por todos do mesmo modo. Extremamente oportuna, pois, esta iniciativa de se refletir sobre o termo e seu conteúdo, pesquisar sua história e seus aspectos filosóficos e sociológicos, tentar compreender sua tão rápida difusão e procurar purificá-la de possíveis confusões e distorções.

   Nosso objetivo, com este ensaio, é mostrar “o novo” que o termo solidariedade traz à reflexão tantos sócio-política, como sócio-religiosa dos grupos e sociedades humanas. Estamos convencidos de que são ainda poucos os que se deram conta do fato de que o termo introduz, com nitidez, uma nova dimensão, necessária e coerente com o desenvolvimento das relações sociais em sociedades modernas. Nesse sentido, ele se constitui num “avanço qualitativo” na compreensão de nossa realidade social e na possibilidade de dar respostas adequadas aos graves problemas que nossos tempos nos apresentam.

   Nesta nossa aproximação à problemática que o termo solidariedade vem trazer, avançaremos por três etapas, seqüentes e interligadas:

1.     Discutiremos, inicialmente, a etimologia e a recente história do conceito.

2.     Num segundo momento, procuraremos ver as razões de sua tão grande importância hoje e as urgências a que vem responder.

3.     Finalmente, acenamos para alguns desafios e riscos que a nova realidade da solidariedade nos apresenta.

 

Etimologia e história

  Solidariedade tem suas raízes  no termo “sólido”, que quer dizer compacto, inteiro, consolidado, no sentido de solidez. Na língua latina os termos “solidus, soliditas”, eram empregados tanto na construção, como na jurisprudência. “Soliditas” significava também uma fraternidade. Esta etimologia nos recorda uma lógica orgânica, isto é, uma unidade que é sólida devido à interdependência de seus componentes.

   É curioso e importante analisar o contexto cultural da aparição do termo. “Solidariedade” tem sua origem num contexto cultural leigo, e muitas vezes com uma tradução leiga de termos cristãos. É assim que os sociólogos Comte e Durkheim, pensando numa reestruturação da sociedade convulsionada e desagregada pela revolução francesa, empregam esse termo nas suas discussões sociológicas. Durkheim, de modo especial, fala em dois tipos de solidariedade: a solidariedade mecânica, onde a consciência da interdependência coletiva se coloca acima da consciência individual: e solidariedade orgânica: onde o conjunto das condutas e das atividades asseguram a coesão e a continuidade da sociedade.

   No início desse século, com Léon Bourgeois, o termo solidariedade se interliga com solidarismo e conquista uma importância política generalizada. O solidarismo nasce à margem do socialismo, como uma reação ao liberalismo econômico, fundado unicamente sobre o contrato privado. Sob a influência das ciências biológicas e da teoria da evolução, os teóricos dessa sociologia nascente apresentam uma concepção de sociologia como um organismo. Uma nova “positividade” deve apoiar, de um lado a interdependência, e de outro o dever correspondente: a solidariedade é o novo  fundamento científico. Ela permite superar o simples  recurso à boa vontade das pessoas, de uma parte, e a caridade cristã vista apenas em termos individuais, de outra.

   No que se refere a documentos eclesiásticos, o termo entra em cena, com grande ênfase, nos escritos de João Paulo II, principalmente em sua Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (SRS, de agora em diante). Apesar de uma das finalidades da Rerum Novarum, de Leão XIII, ser a preocupação de levar em conta as exigências sociais e coletivas da caridade, o termo empregado é ainda “articulação” (“conjunctio”, em latim). Antes de João Paulo II o termo “solidarité” foi empregado na tradução da Encíclica Desenvolvimento dos Povos (Populorum Progressio), de Paulo VI, foi um dos primeiros divulgadores do termo. Foi até mesmo título de uma conferência proferida por Lebret em São Paulo, em 1954, sobre a “civilização de solidariedade entre grupos sociais e entre povos.”

   Pode-se dizer, em síntese, que o termo solidariedade, dentro do contexto cultural em que surgiu, teve como objetivo tornar presente duas dimensões:

- a interdependência (a “solidez” da solidariedade é constituída pelos laços entre pessoas e coletividades);

- a eficiência e a eficácia desta interdependência, como reação a uma prática social individualista, que não conseguia tais resultados.

   Essas as origens do termo solidariedade. Damo-nos conta de que todos os empenhos, no referente à solidariedade tiveram, e em grande parte ainda têm, o mesmo objetivo: libertar a prática social, e até mesmo a caridade cristã, de um reino “privado”, de que ela permanecia prisioneira, a fim de que essas ações pudessem assumir dimensões sociais, inclusive internacionais. É sobre isso que queremos discorrer agora.

 

Importância e urgência da solidariedade

 É um truísmo afirmar que vivemos num mundo em constante evolução e mudança, e que nossa época se ressente de tempos psicológicos e sociologicamente “acelerados”. O que é atual hoje, já é ultrapassado amanhã. Mal nos atualizamos, e já nos damos conta de que as coisas mudaram. “Tudo o que é sólido, desmancha no ar”.

  Mais ainda: as sociedades se tornaram extremamente estruturadas e complexificadas.

   As organizações sociais, hoje, não dependem mais de algumas pessoas, mais ou menos influentes, que decidem sobre o andamento das coisas. Foram criadas, mais e mais, estruturas pesadas e abrangentes, onde as vontades individuais interferem com dificuldade. Essas estruturas se dão tanto em nível regional, como nacional e mesmo internacional.

   Ao lado dessas estruturas, notamos uma contínua complexificação de nossas sociedades. Essa característica se deve principalmente ao desenvolvimento das novas tecnologias, especialmente no campo da comunicação e da informatização. A teia de relações que sustenta o tecido social torna-se, dia-a-dia, mais sofisticada, e com isso, mais frágil. Se é verdade que as novas descobertas e os avanços tecnológicos vêm possibilitar, muitas vezes, mais bem-estar para parte da população, também é verdade que os riscos que os acompanham são cada vez maiores. O terrorismo, por exemplo, é um fenômeno que procura tirar proveito, muitas vezes, das contradições trazidas por essa complexificação. Nada mais extraordinário que um avião a mil quilômetros por hora, carregando algumas centenas de passageiros, mas ao mesmo tempo nada mais frágil, pois a simples ameaça de uma bomba coloca toda essa multidão em risco de vida.

   Nada mais fantástico que a descoberta de drogas químicas que eliminam doenças endêmicas. Mas nada mais terrível e incontrolável do que o espectro de uma guerra bacteriológica.

   Essas considerações nos levam à conclusão de que não é mais possível, nos dias de hoje, pensar em termos individuais, particulares. Se há algumas décadas era ainda possível fazer apelo  a personalidades singulares, pensar a solução dos problemas em termos de determinadas pessoas e líderes, tais empreendimentos tornam-se, hoje, mais e mais difíceis e ineficazes.

 

   Mas que tem tudo isso a ver com solidariedade?

 

   É nossa convicção que aqui se situa a grande novidade trazida por essa realidade que se passou a denominar de solidariedade.

   Não é muito comum, ao menos em nossos meios acadêmicos, encontrar citações e argumentações tiradas dos documentos sociais emanados do Vaticano. Mais e mais, contudo, autoridades políticas, em nível mundial, passaram a considerar as reflexões propiciadas principalmente pelos últimos pontífices, como argumentos úteis e importantes para a solução dos problemas atuais. É a partir dessa constatação que pretendo buscar, a partir do documento SRS, de João Paulo II, razões e argumentos para comprovar as presentes reflexões.

   O Documento SRS foi escrito como comemoração do 20°  aniversário de um outro documento, de Paulo VI, que teve uma forte e grande influência no mundo contemporâneo: Desenvolvimento dos Povos (Populorum Progressio). Nesse documento, Paulo VI discutia temas centrais, referentes à problemática do relacionamento entre as nações de todo mundo. João Paulo II retoma esse tema urgente e decisivo, e mostra o que de novo surgiu nas duas últimas décadas pelo conceito solidariedade. É o que passo a sublinhar.

   Há dois conceitos que se revezam e perpassam todo o Documento de João Paulo II: o conceito de “pecado social” (ou estruturas de pecado)  e o de “solidariedade”. Quais as implicações desses conceitos?

   Ambos os conceitos têm a ver com uma mesma realidade: não é mais possível compreender a realidade atual, nem ser eficaz na sua transformação, sem que tomemos consciência das características novas das sociedades atuais: sua complexificação (interdependência) e sua estruturação. É por isso que se passa a falar em “pecado social”, e “estruturas de pecado”. Essas estruturas se radicam em atos concretos das pessoas “que as fazem aparecer, as consolidam e tornam difícil de removê-las”. Paralela a essas estruturas, e como resposta a elas, é necessário que se constitua uma

     “interdependência apreendida como sistema determinante de relações no mundo                             contemporâneo, com as suas componentes – econômica, cultural, política e religiosa – e assumida como categoria moral. Quando a interdependência é reconhecida assim, a resposta correlativa, como atitude moral e social e como “virtude”, é a solidariedade”.

   Pode-se perceber aqui o real avanço na reflexão social e política propiciada pelo documento SRS. Não se encontram, em análises anteriores, termos como “estruturas de pecado” e “solidariedade”. Os tempos, as novas situações da humanidade, o mundo que se torna cada dia mais interligado, quase que uma “aldeia global”, exigem conceitos novos para compreender melhor essa realidade e apresentar propostas eficazes de mudança.

As soluções dos problemas hoje passam pela solidariedade. Diante de problemas estruturais, as soluções de ser comuns, grupais, associativas. Provém daqui a grande importância dos movimentos populares e das organizações de todo tipo. Não é por acaso que o sindicato dos trabalhadores poloneses, que se tornou uma espécie de bandeira de transformação em todo o mundo, se chamava “solidariedade”.

   A afirmação que conclui a 5ª parte do documento SRS sintetiza, de maneira admirável, essa importância e atual problemática:

   “Os ‘mecanismos perversos’ e as ‘estruturas de pecado’, de que falamos, só poderão ser vencidos mediante a prática daquela solidariedade humana e cristã, a que a Igreja convida e que ela promove incansavelmente”.

 

Desafios e riscos da solidariedade

   A realidade da solidariedade, contudo, e o novo significado que o termo implica, não deixa de nos trazer desafios e riscos.

   O primeiro e o maior desafio, que o novo conteúdo do conceito nos apresenta, está no fato de que solidariedade é uma questão de prática. A impressão que se tem, ao analisar discursos políticos, e às vezes, também religiosos, é de que tudo o que apresentam se resume a palavras, expressões de grande boa vontade, mas que não chegam até o cotidiano das ações. A solidariedade, ao contrário, coloca as mãos na massa, enterra seus pés no barro, prova-se nas ações concretas. Essa dimensão de prática é, certamente, o grande desafio que a realidade da solidariedade nos apresenta. Ela exige ação, organização, articulação. Implica que tenhamos a coragem de sair de nós mesmos, olharmos para fora, fazermos alianças, “solidarizarmo-nos” com os que já estão na luta, atuarmos com gestos concretos, deixar  nosso “purismo” teórico de onde é fácil julgar e condenar. Pelo fato mesmo de chegarmos à prática, enfrentamos contradições, entramos no reino do provisório, do precário. Mas é ali que se constrói a nova sociedade, sempre imperfeita, mas podendo ser sempre mais aperfeiçoada. Já sabemos que toda sociedade é imperfeita. Nem pode deixar de ser assim. O que se esquece, contudo é que esta sociedade pode se tornar, através de nosso compromisso à ação, mais perfeita.

   Esse primeiro desafio tenta fazer com que superemos o risco de alienarmos nossas práticas, reduzindo-as a discursos vazios e ilusórios. A solidariedade não é uma questão de discurso; é, isto sim, uma questão de ação concreta e prática. É ortopráxis, mais que ortodoxia.

   Um segundo desafio que o conceito de solidariedade, e o conteúdo que ele carrega, nos apresenta, é o fato de que, por ser ele um gesto concreto, implica necessariamente uma opção e, na maioria das vezes, implica a construção de alianças. Se é verdade que opção não significa exclusão, ela implica, contudo, uma preferência em nossas alianças. E toda aliança é um desafio, e ao mesmo tempo um risco.

   Há inúmeros critérios que nos poderão guiar nossas opções de ação. Entre eles há um, contudo, que deverá, sem dúvida alguma, ser colocado como central, e talvez como referencial de todos os outros e que vem citado, na SRS, entre os primeiros temas a serem lembrados: “a opção ou amor preferencial pelos pobres”. É dentro da ótica dessa opção preferencial que deveremos estruturar nossas ações.

 

Conclusão

   O mundo evoluiu, a sociedade se complexificou, as relações entre as pessoas e entre os povos se estruturaram. Vivemos uma realidade social e política bem diversa daquela de algumas décadas atrás. Se naquele tempo, para a existência de uma sociedade justa e democrática bastavam posicionamentos e ações mais individuais e particulares e o compromisso social podia ser mostrado através de tais atos, não é mais essa a realidade hoje. A existência de relações estruturadas, de um “pecado social” e de  “estruturas de pecado” exige dos cidadãos, e dos que lutam para uma sociedade verdadeiramente humana e democrática uma outra virtude, que possa compreender e confrontar essa nova realidade: essa virtude é a solidariedade. O novo rosto do amor hoje passa a ser a solidariedade.



© 2007/2008 Catedral Santo Antônio Chapecó.  Todos os direitos reservados. | créditos |