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Fonte: Católico.org
 
 
 
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. : Catedral Santo Antônio :.
A LITURGIA QUARENTA ANOS APÓS O VATICANO II

Cardeal Godofried Daneels
Arcebispo de Malines-Bruxelles - Belgique
Doc. Cath. 18-5-2003
 
APOGEU OU RETROCESSO?
 
1. GRANDE ENCRUZILHADA
 
            Deve ser difícil a quem não passou por esta experiência imaginar a que ponto a praxe litúrgica mudou em menos de um meio século. A evolução que se produziu no decurso dos últimos trinta anos hoje é quase imperceptível, tanto o novo modelo litúrgico é praticado em toda parte. Semelhante situação é gratificante, sem dúvida, mas daí é possível concluir que as intenções profundas do Sacrosanctum Concilium tornaram-se realidade? Talvez tenha chegado o momento de fazer uma avaliação.
 
            É evidente que em liturgia o último meio século trouxe grande mudança nas relações entre o ministro e a assembléia. Esta mudança, contudo, não deixou de influenciar nossa compreensão das relações entre o sagrado e o profano e mesmo entre a Igreja e o mundo. Poder-se-ia resumir a situação da maneira seguinte: Antes da reforma litúrgica, a distância entre o ministro e o povo era claramente marcada. Encontrava uma expressão material até na concepção dos lugares de culto; o coro enquanto espaço distinto reservado ao padre, o altar orientado para o leste, a mesa sagrada que separava o padre da assembléia.Mais discutível ainda do que a arquitetura da igreja, era o caráter paralelo da celebração. Não era raro ver o padre celebrar a liturgia oficial enquanto o povo se entregava a suas devoções pessoais. O uso do latim desempenhava evidentemente papel importante nesse paralelismo.
 
            Tudo isso fazia com que a liturgia fosse considerada intangível: regulada pelas rubricas, devia ser executada com obediência e o maior respeito. A liturgia era um ponto adquirido e o bom liturgista era antes de tudo um fiel executor. O povo assistia, certamente, mas não desempenhava praticamente papel algum na liturgia propriamente dita.
 
 
2. A PARTICIPAÇÃO ATIVA
 
            Desde a origem, o movimento litúrgico, que nasceu na Bélgica em 1909, teve por finalidade preencher o fosso entre a liturgia oficial do padre e a do povo. Nascida deste movimento, a expressão “participação ativa” entrou hoje no uso comum. Desempenhou papel chave na Constituição sobre a liturgia do Vaticano II. A participação ativa primeiro foi favorecida pela difusão dos missais populares que continham a liturgia dominical; os fiéis podiam ao menos seguir a celebração. Mas em breve, surgiu o desejo de fazer algo mais do que simplesmente seguir por um livro. Queriam as pessoas participar e entrar no jogo. O Vaticano II. atendeu a este desejo introduzindo o uso do vernáculo, simplificando os símbolos litúrgicos para torná-los mais transparentes, voltando à prática da Igreja primitiva, disposta a retirar os acréscimos que faziam sombra sobre o essencial e redistribuindo corretamente as funções litúrgicas. O resultado foi a maior participação do povo no cerne da liturgia.
 
 
 
 
3. DO RUBRICISMO À MANIPULAÇÃO
 
            A participação ativa da assembléia na liturgia é evidentemente um presente incomparável do Concílio ao Povo de Deus. Mas como em toda reforma digna deste nome, há uma sombra no quadro. A participação ativa na liturgia, o fato de prepará-la em conjunto, a solicitude da aproximação maior possível da cultura e da sensibilidade dos fiéis podem conduzir imperceptivelmente a uma espécie de apropriação da liturgia. A participação e a celebração mútua podem conduzir a uma forma sutil de manipulação. Então, a liturgia não perde seu caráter intangível - o que em si não é ruim - para tornar-se em certo sentido propriedade dos que a celebram, domínio abandonado a sua “criatividade”. Os que se acham ao serviço da liturgia - padres e leigos - tornam-se seus proprietários. Em certos casos, é possível mesmo chegar a uma espécie de “golpe de força” litúrgico, que elimina o sagrado, banaliza a linguagem e transforma o culto em acontecimento social. Em resumo, o verdadeiro sujeito da liturgia não é mais Cristo que, pelo Espírito, rende homenagem ao Pai e santifica a assembléia num gesto simbólico. O verdadeiro sujeito torna-se a pessoa humana ou a comunidade que celebra. O acento exagerado antes dos anos cinquenta colocado na disciplina, na obediência, na fidelidade às rubricas, na recepção e entrada numa entidade preexistente cede o lugar à vontade própria e ao esvaziamento do senso do mistério na liturgia. Se houver isso, a liturgia não é mais leitourgía : obra do povo e para o povo, relativamente a Deus; faz-se pura atividade humana.
 
            Felizmente, a tendência que acabamos de evocar não é universal. Mas todo ensaio de avaliação da praxe litúrgica em nossa época deve levá-lo em consideração.
 
4. A LITURGIA NOS ULTRAPASSA
 
            Há na liturgia um princípio básico: a liturgia é em primeiro lugar “a obra de Deus em nós” antes de ser nossa obra para Deus. A liturgia é, em sua própria essência, um datum, um dom. Ela nos ultrapassa e existe bem antes que tenhamos podido nela participar. O sujeito ativo da liturgia é Cristo ressuscitado. É ele o primeiro e único Sumo Sacerdote, o único capaz de oferecer o culto a Deus e santificar a assembléia. Não se trata apenas de uma verdade teológica abstrata; o fato deve tornar-se evidente e visível na liturgia . O coração da liturgia já se encontra nos gestos da sua instituição pelo Senhor. Não quer dizer que a pessoa ou a comunidade que celebra não tenha jamais o poder ou a autorização de apelar para sua criatividade. A comunidade é criadora, mas não é uma “instância de criação”. Doutra forma, a liturgia não seria mais a epifania dos mistérios de Cristo através do serviço da Igreja, a continuação de sua encarnação, crucifixão e ressurreição, a “encarnação” dum projeto divino na história e no mundo das pessoas humanas, por meio de símbolos sagrados. Em tal situação, a liturgia nada mais seria do que auto-celebração da comunidade.
 
            A liturgia “preexiste”. A comunidade que celebra nela penetra como numa arquitetura preestabelecida, divina e espiritual. Em certa medida, é igualmente determinada pelo lugar de Cristo e de seus santos mistérios na história. A Eucaristia não é em si uma “refeição sagrada” mas antes a atualização de uma refeição espiritual: aquele que Cristo tomou com os discípulos na véspera da paixão. Neste sentido, a liturgia não pode jamais tornar-se uma fina refeição da comunidade celebrante. Não somos criadores; somos os servos e guardas dos mistérios. Não somos nem proprietários, nem autores.
 
5. A ATITUDE FUNDAMENTAL DO HOMO LITURGICUS
 
            A atitude fundamental do homo liturgicus - pessoal e coletivamente - supõe a receptividade, a escuta, o dom de si e a capacidade de se relativizar. É a atitude da fé e da obediência fiel. Não é porque uma caricatura desta atitude de obediência conduziu no passado a um levantamento e a um rubricismo servil e absurdo que se viu diminuído o senso de “penetrar naquilo que nos ultrapassa”.
 
            O homo liturgicus não manipula e o gesto que ele ou ela faz não se reduz a uma expressão de si ou a um desabrochar pessoal. É uma atitude de orientação para Deus, de escuta, obediência, acolhimento reconhecido, de encantamento, de adoração e de louvor. É atitude que consiste em escutar e ver, e que Guardini denominava “contemplar”, atitude desconhecida do homo faber  de muitos de nós.
 
            Em resumo, a atitude fundamental do homo liturgicus  é uma atitude de oração, de oferta de nós mesmos a Deus para que sua vontade se cumpra em nós.
 
            Não é de surpreender que numa época como a nossa, que intervém ativamente na realidade cotidiana e submete esta realidade ao pensamento científico e à perícia tecnológica , seja particularmente difícil uma atitude autenticamente litúrgica. A dimensão “contemplativa” da pessoa humana hoje não é mais evidente. nessas condições; o cerne da liturgia é ainda menos evidente.
 
            A participação ativa deve, pois, ser recolocada nessa atitude “contemplativa” e ter por conseguinte suas características específicas.
 
6. O CARÁTER INCOMPREENSÍVEL DA LITURGIA
 
            Uma das primeiras preocupações do Vaticano II. e da Igreja é e continua a ser que a liturgia seja compreendida pela comunidade que celebra. Cada uma das reformas propostas pela Constituição parte desta solicitude. “Compreender o que se faz” é exigência fundamental de tudo o que fazemos., inclusive na liturgia .
 
            No início, colocava-se na conta da língua o caráter incompreensível da liturgia . Mas desde que se introduziu o vernáculo, verificou-se que o todo era também pouco familiar. A liturgia , certamente, é quase inteiramente baseada na Bíblia. Diz-se que a Bíblia hebraica, o Antigo Testamento, é particularmente pouco familiar. Desenrola-se num contexto agrário, que mal se aplica hoje em várias regiões do mundo. Ao mesmo tempo, os textos bíblicos estão arraigados numa cultura rural e uma cultura mediterrânea, muito particular. Numerosas imagens, os pastores, os rebanhos, os poços não falam mais ao citadino contemporâneo. Em outras palavras, a Bíblia utiliza uma linguagem pertencente a uma época passada.
 
            Os textos não bíblicos da liturgia são também um pouco estranhos. As coletas latinas com formulação concisa e métrica estruturada são inteiramente impossíveis de traduzir, não porque as palavras não possam ser vertidas numa língua moderna, mas porque desapareceram a mentalidade e a cultura em que nasceram. Um grande número de textos, destacados do contexto musical, parecem extremamente arcaicos. Pensai, por exemplo, no Salve Regina ou no Dies irae  ou mesmo nos  Introitos  e antífonas de comunhão do canto gregoriano, sem falar da imagem arcaica de Deus, dominante nesses textos ( Deus que dorme, Deus de cólera, etc.).
 
            Certos símbolos, mesmos se secundários - não parecem funcionar: a gota d’água no cálice, a mistura de uma partícula da hóstia e do vinho, o lavabo, o lava pés. Ouve-se dizer que estão “fora da moda”, são “ultrapassados”, “medievais’ e “monásticos”.
 
 
 
7. ABREVIAR OU ELIMINAR?
 
            Muitas vezes prefere-se solução de curto termo, que apenas toca de leve o verdadeiro problema. Na liturgia certos termos foram substituídos por outros, de compreensão mais fácil. Há termos bíblicos, contudo, que não podem ser substituídos. Que fazer, por exemplo, de termos tais como “ressurreição”, “Páscoa”, “Eucaristia”, “metánoia” , “pecado”? Eles fazem parte de uma espécie de “língua materna’, bíblica e litúrgica que não pode ser simplesmente substituída. Precisam ser aprendidos. É difícil imaginar um judeu que empregasse termo diferente para shabbat ou pesach.
 
            Certas imagens bíblicas, efetivamente, são difíceis de apreender em nossa cultura urbana contemporânea. Não encontramos todos os dias pastores e rebanhos. Daí se conclui que tais imagens não sejam mais compreensíveis em si mesmas? Porque jamais alguém viu um serafim, o vigor metafórico deste mensageiro angélico não nos fala mais? A metade da poesia escrita utiliza imagens e termos não pertencentes à experiência e ao ambiente cotidianos do leitor. O Pontifical romano extraiu vários símbolos da cultura alemã da Idade Média.
 
            Muitas vezes prefere-se substituir os textos litúrgicos por textos poéticos, em particular por ocasião de casamentos e batizados, sem considerar a profunda diferença teológica entre um texto esteticamente válido e um texto bíblico. Forçoso é declarar que vários destes textos pertencem a uma cultura ainda mais limitada do que a da Bíblia, que parece com razão possuir caráter mais universal.
 
            Na maior parte dos casos, o remédio empregado quase não ajuda. Frequentemente tudo gira em torno de questões como: “O que se pode cortar?” ”Como abreviar?” “O que exprimiria melhor o que se passa em nossa vida pessoal e comunitária?” Mas, a última pergunta é justificada? E primeiro, o que temos para dizer? O que se passa em nossa vida? Ou o que Deus tem para nos dizer? De um modo, é certo, que possamos compreender.
 
            Parece haver somente uma solução. Se a liturgia não é simplesmente uma expressão da religiosidade humana comum, mas antes a epifania de Deus na história da humanidade ( de Abraão a Cristo), então não podemos escapar à necessidade da catequese e da iniciação. A liturgia exige formação porque é proclamação e celebração de mistérios, mistérios que se realizaram na história do judaísmo e do cristianismo.
 
8. O QUE SIGNIFICA COMPREENDER?
 
            O que significa precisamente compreender? É claro que se a liturgia é a epifania das transações entre Deus e a Igreja, o cerne mais profunda da liturgia não nos será jamais perfeitamente accessível. Há, com efeito, um cerne duro na liturgia - o mistério - que é inaccessível. Só podemos penetrar nele pela fé.
 
            Mas existe outra observação a respeito da compreensão. Os contemporâneos concebem muitas vezes a compreensão como a capacidade de apreender de relance. Algo é compreensível se podemos apreendê-lo imediatamente. Tal concepção é válida para os objetos ordinários de conhecimento, apreendidos num nível puramente cognoscitivo; mas então trata-se antes de registrar do que de compreender.
Ao abordarmos as profundezas da realidade humana, - e divina -, esta concepção não se aplica. O amor, a morte, a alegria, a solidariedade, o conhecimento de Deus - tais realidades não são apreendidas de repente e num relance. Na ocorrência, a compreensão corresponde antes à noção bíblica de “conhecimento - penetração”. Processo longo e progressivo de apreensão de uma realidade particular. O mesmo vale a respeito da liturgia. Ela não é objeto de conhecimento no sentido comum da palavra. Aliás, não é absolutamente objeto de conhecimento; seria antes fonte de conhecimento, fonte de compreensão. Por este motivo, a análise aqui está fora de lugar; convêm apenas escuta e familiaridade prolongadas. Daí se conclui que a liturgia não se abrirá à compreensão a não ser numa perspectiva de “empathia”. A liturgia não é compreendida senão por aqueles e aquelas que têm fé nela e a amam. Por isso permanece inaccessível e incompreensível fora do âmbito da fé.
 
            Além disso, a liturgia só é compreensível em certo nível de repetição. Apenas gradualmente as realidades profundas revelam seu pleno significado. Daí decorre o fenômeno do “ritual” da liturgia . Quem diz “ritual” diz repetição.
 
            Várias mudanças introduzidas na liturgia para torná-la mais compreensível fracassaram porque referentes a aspectos imediatos, cognoscitivos e informativos da compreensão. Queriam explicar tudo, comentar, analisar. Não favoreciam a apreensão da liturgia. São intervenções cirúrgicas e medicinais (abrevia-se, substitui-se, rejeita-se, descreve-se) praticadas numa realidade agonizante, uma espécie de paliativos que jamais curam o doente. A única concepção válida é da ordem do diálogo: Permitir ao tempo litúrgico dizer o que ele tem a dizer; escutar com atenção suas linhas harmônicas e dar ao seu sentido profundo o tempo de se desenrolar. Ao invés de procurar solução de substituições, deixar a liturgia falar por si e expor suas próprias virtualidades.
 
9. NOSSA RELAÇÃO FALSIFICADA COM A LITURGIA
 
            O lado incompreensível da liturgia não depende tanto da ininteligibilidade de seus grandes símbolos. De fato, somos todos sensíveis à profunda fascinação que exercem símbolos como o fogo, a luz, a água, o pão , o vinho, a imposição das mãos, a unção. Esses grandes símbolos - naturais - entram em ressonância com os arquétipos de nossa repertório imaginativo. Os símbolos secundários podem, bem entendido, apresentar mais problemas. Mas justamente, são de menor importância e o Vaticano II. aboliu um bom número deles.
 
            O desaparecimento do universo simbólico em que operam esses símbolos desempenha papel mais importante no problema da compreensão. Fora do contexto, o símbolo litúrgico qual peixe fora d’água, perde grande parte de sua vitalidade. A melhor prova disso se encontra no que se poderia chamar de “situações contrárias”, onde o universo simbólico continua a prosperar ainda hoje. Como se explica que expressões latinas ou um refrão gregoriano continuem a funcionar em Taizé, e não nas paróquias? Porque se acham em seu lugar na comunidade religiosa de Taizé com sua vida litúrgica monástica. Por que os símbolos supra citados funcionam sempre nas abadias, igrejas dos mosteiros e comunidades carismáticas? Pela mesma razão. Por que um  requiem  gregoriano funciona bem em funerais? A compreensão litúrgica depende também da presença de certos elementos ambientais não litúrgicos. É o conjunto das relações que entretemos com a liturgia - mesmo fora da celebração propriamente dita - que criou tantas possibilidades.
 
             O caráter incompreensível da liturgia não deriva somente da própria liturgia , mas depende em parte de nós. Temos de corrigir nossa própria atitude. Devemos examinar nossa global relação para com Deus, nossa fé , nosso estilo de vida, etc. Acaso a liturgia dá sentido a essas dimensões de nossa vida, ou é um corpus extraneum ? Devemos estar cientes de que compreender a liturgia é muito mais do que um exercício cognoscitivo; será necessário nela ‘penetrar” com amor. Aliás, nossa visão, nosso olhar contemplativo é fraco. Desde a Renascença perdemos a faculdade de contemplação desinteressada, que se viu posta de lado, em favor da observação analítica.
 
10. O QUE DEVEMOS FAZER?
O QUE PODEMOS FAZER?
 
 A. Tema e variações
            É claro que “penetrar na estrutura existente” da liturgia não quer dizer excluir toda elasticidade do estilo litúrgico. Bem longe de ser interdita, a criatividade é necessária. Mas, se não é a criatividade que está em causa, qual o problema?
           O problema está nos limites de nossa intervenção. Não se pode simplesmente transformar e remodelar toda a questão. As mudanças deve ser feitas com inteligência. A liturgia contém certos temas que, se não podem ser mudados, continuam abertos a certa variedade. Certas pistas litúrgicas, claramente balizadas e imutáveis foram determinadas pelo próprio Cristo. Em termos clássicos, trata-se da “substância” dos sacramentos, sobre a qual a própria Igreja não tem poder. A liturgia continua sendo a liturgia de Cristo.
 
            Há elementos litúrgicos de origem histórica que não podem ser alterados. Certas formas de oração, determinadas palavras, modos de falar, textos da Bíblia continuam imutáveis. Talvez mesmo a sequência litúrgica de uma leitura da Escritura, de um responso lírico (salmo) e duma oração entrem nesta categoria. Mais do que de um capricho da liturgia, uma verdade teológica profunda: Deus fala primeiro e só depois vem a nossa reação.
 
            Para delimitar o tema de suas variações, é indispensável avançada formação litúrgica. A liturgia exige o conhecimento da tradição e da história; numa palavra, o conhecimento das fontes. Antes de tomar posição na tarefa litúrgica, é preciso conhecê-la. A liturgia exige instrução e intuição, boa dose de espiritualidade e de senso pastoral. Eis talvez a causa da pobreza litúrgica que salta aos olhos em tantos lugares pelo mundo. Não é falta de esforço, devotamento ou imaginação; é simplesmente falta de competência. De nada serve criar grupos de trabalho litúrgico se os membros não foram formados para esta obra.
 
B. A duração da celebração
            Poderá causar estranheza a muitas pessoas a afirmação, mas nossas celebrações litúrgicas são geralmente curtas demais. A liturgia necessita de tempo para revelar seu tesouro. Ela nada tem que ver com o tempo físico ou cronometrado, mas com o tempo espiritual da alma. Como a liturgia não depende do mundo da informação, mas pertence ao domínio do coração, não segue o tempo “do relógio”, mas o kairós. Várias de nossas liturgias não oferecem tempo nem espaço para se “penetrar” no evento. A este respeito, a liturgia oriental fornece-nos bom exemplo, Ela toma tempo e convida os participantes a “deixar para trás todos os cuidados deste mundo” (Hino dos querubins ). Não basta que as pessoas tenham ouvido a liturgia ou que ela tenha sido proferida. Foi “proclamada”? Tiveram oportunidade de se integrar nela? Não basta ter ouvido a liturgia ; precisamos também de tê-la apreendido.
 
            O silêncio e o tempo de interiorização têm aqui papel preponderante. A liturgia do Vaticano II. prevê tempo para o silêncio mas, na prática, quase não se lhe oferece oportunidade. A ausência de silêncio transforma a liturgia numa sucessão ininterrupta de palavras, que não deixa tempo para a interiorização. Eis ainda uma razão que explica porque a liturgia é “incompreensível”.
 
C. Articular a palavra e o gesto
            Um dos principais defeitos da liturgia, como é praticada de facto no Ocidente é a “verbosidade”. A liturgia tornou-se essencialmente questão de “linguagem” e de discurso. A palavra, por muito tempo ignorada e negligenciada, retornou com força. Quantos celebrantes não consideram a homilia o ponto culminante da liturgia e o barômetro da celebração? Quantos não pensam que a celebração está mais ou menos terminada após a liturgia da Palavra? De fato, observa-se marcado desequilíbrio entra a duração da liturgia da Palavra e a Eucarística.
 
            Aliás, dá-se demasiada importância a um acesso ïntelectual” da liturgia. Não se deixa bastante espaço à imaginação, ao afeto, à emoção e à estética bem compreendida. Em consequência, a liturgia funciona de modo extremamente intelectual e fica impedida de atingir vários participantes, ou por não serem intelectuais ou por não pensarem que ela possa nutrir-lhes a vida.
 
            Uma liturgia quase exclusivamente centralizada no intelecto não tenderá à participação do corpo humano na celebração. Não é espantoso, então, que as pessoas acabem por ficar sentadas durante quase toda a celebração. Estar sentado é a posição normal do ouvinte (Notai, contudo, que isto é menos frequente na América do Norte).
 
            Há grave desequilíbrio na articulação da palavra e do gesto. Sem introduzir gesticulação retórica ou teatral, poder-se-ia afirmar, contudo, que a língua e o ouvido são muitas vezes os únicos órgãos aos quais apela a liturgia . Ela deixa deste modo de ser celebração para ser apenas instrução e discurso.
 
12. A utilização abusiva da liturgia
            Uma das consequências da verbosidade supramencionada é o risco de empregar a liturgia para uma finalidade alheia à mesma. A liturgia é, no entanto, atividade simbólica global, dependente do domínio “lúdico”. O “jogo” é único no sentido de se “jogar por jogar”, pelo prazer de jogar. A competição e o interesse financeiro matam o jogo.
 
            A liturgia também morrerá se subordinada a fins estranhos a si mesma. A liturgia não é o momento nem o lugar de dar catequese. Tem, é certo, grande valor catequético, mas não existe é substituta dos diferentes momentos de catequese que há de marcar a vida da cristã ou do cristão. Esses momentos têm o devido tempo.A liturgia não devia também servir para difundir informação, por necessário que seja. Não devia ser constrangida a servir de tribuna para comunicar avisos aos participantes de tal ou tal atividade, a menos que não seja toda pertencente à própria liturgia. Não se vai à missa no Dia mundial das Missões para aprender algo a respeito de determinado território de missão. Participa-se da liturgia para refletir no modo de integrar a própria vida na missão recebida de Cristo de “pregar a todas as nações”. A criação de toda espécie de domingos com temas e celebrações temáticas não tem outro futuro a não ser acarretar a morte da liturgia como tal. A liturgia não deve certamente servir de “estímulo” para outra atividade, mesmo se atividade eclesial. Celebração não é reunião. Não impede, contudo, que se possa partir da liturgia com aumento de compromisso, de fé, de amor que ilumine e inspire a ação.
 
            A liturgia é atividade livre; tem em si o próprio fim. Mesmo sendo “a fonte e o cume” de todas as atividades da Igreja, não pode substituí-las, nem com elas se confundir.
 
12. A PEDAGOGIA “SENSÍVEL” DA LITURGIA
 
            É característico da liturgia dar lugar de honra à “experiência”, A experiência vem em primeiro lugar e se a reflexão, a análise, a explicação e a sistematização podem ser necessárias, vêm após a experiência.
 
            “Primeiro celebrar, em seguida compreender”. A proposição poderá causar espanto, parecer obscurantista e anti-intelectual. Oculta um apelo à irracionalidade ou ao abandono do vasto esforço catequético da Igreja para preparar à recepção dos sacramentos? Pensai, por exemplo, no credo e na confirmação.
 
            Os Padres da Igreja tinham por princípio que a catequese mistagógica - que revela o cerne mais profundo dos santos mistérios - devia realizar-se somente após os sacramentos da iniciação. Antes do batismo, eles se contentavam com dar uma formação moral e ensinar o “estilo de vida” cristão. Logo após o batismo - durante a semana de Páscoa - expunham o sentido profundo do batismo, da confirmação e da eucaristia. Sua exposição pedagógica era “sensível”: primeiro participar, fazer a experiência no plano existencial dentro da comunidade e somente depois explicar. O método de instrução compunha-se de um quadro de perguntas e respostas deste gênero: “Vistes que...?”, “Pois bem. Isto significa que...”.
 
            Talvez não devemos seguir à letra este processo pedagógico - a disciplina arcani  não era alheia ao caso. Mas certamente nos esclarece a respeito da direção a tomar. Não compreende a liturgia quem nela não penetrar pela fé e com amor. Neste sentido, nenhum método catequético terá êxito se não se apoiar em boas celebrações litúrgicas comunitárias. E reciprocamente, a própria catequese não servirá para muita coisa se o tempo da catequese não abrange uma praxis  litúrgica.
 
            Ao se tratar de liturgia , é necessário ater-se à seguinte regra: primeiro a experiência, primeiro “viver” a liturgia, e em seguida refletir e explicar. Os olhos do coração devem abrir-se antes dos olhos do intelecto porque só se entende de fato a liturgia com a inteligência do coração.
 
            Tudo isso tem consequências para as comissões de liturgia . Os que querem atuar sobre a liturgia, e conforme dissemos “modular o tema dado”, deverão primeiro escutar o tema com atenção e participar da celebração da liturgia em seu estado atual. Sem isso, toda meta litúrgica nada mais será do que “expressão de si próprio” em vez de modelar uma entidade já constituída, que mergulha as raízes na tradição litúrgica do Antigo e do Novo Testamento e na tradição viva da Igreja. O que pensaríamos de um compositor que recusasse ouvir a música de seus predecessores, ou de um pintor que recusasse visitar um museu? Um músico escuta música como um poeta lê poesia. Simples bom senso, sabedoria humana, mas aplica-se perfeitamente à liturgia que é antes de tudo obra que Deus cria com seu povo.
 
            O liturgista digno deste nome começa por escutar, meditar, rezar e interiorizar. Só depois pode “modular”.
 
13. RITUAL E TÉDIO
            As palavras “rito” e “ritual” evocam tédio e monotonia. “Sempre a mesma coisa...”, ouve-se repetir. Ritual é sinônimo de rigidez e esclerose.
 
            Seria bem assim? É verdade que existe um apego exagerado a formas particulares, mas então trata-se de ritualismo, de ritual malsão. Admite-se que o que é bom tem a respectiva patologia.
 
            O ritual, contudo, difere inteiramente do ritualismo. O ritual não tem preço, é insubstituível. Ocupa um lugar em toda atividade humana. Todo ser humano tem um ritual da manhã e da tarde, como toda sociedade possui festas regulares, celebradas ano após ano da mesma forma.
 
            O ritual é um dado antropológico inevitável. Toda realidade humana um pouco importante acha-se envolvida e protegida pelo ritual: nascimento, casamento, amor, morte. Cada passagem é ornada e embelezada pelo ritual. Cada vez que nos encontramos com uma realidade transcendente, nós a “humanizamos” por meio do ritual.
 
            O ritual tem como particularidade ser repetitivo e estereotipado. A fim de aprofundar os assuntos sérios, temos necessidade de estereótipos idênticos, de fórmulas cerimoniais tranquilizadoras, que chamamos de rituais. Esse gênero de repetição, contudo, não acarreta necessariamente monotonia nem abafa cada elemento pessoal. O rito do casamento, por exemplo, é estereotipado; todos se casam empregando as mesmas palavras e fazendo os mesmos gestos. E no entanto, as pessoas em causa não se despersonalizam absolutamente, não se reduzem ao estado de simples números de uma fila. Cada casamento continua a ser único, mesmo que se desenrole de modo idêntico a qualquer outro. De fato, é essencial para cada casal encontrar seu lugar na fila dos outros casamentos, por meio do rito matrimonial estabelecido. Deste modo, a fragilidade do compromisso pessoal toma uma dimensão social e acha-se, a seus olhos, protegida e garantida. O mesmo vale para a linguagem do amor, que permanece indefinidamente a mesma e no entanto, cada vez que é proferida, evoca frescor e novidade.
 
            O ritual repetitivo dá, além disso, ocasião para reflexão e interiorização em profundidade. As questões sérias - como a liturgia - não podem ser apreendidas instantaneamente. Precisam de tempo, e quem diz tempo diz repetição. Só a informação pura, como um mandamento ou uma linguagem informática, não exige repetição porque pode ser compreendida imediatamente. As questões mais profundas só com o tempo permitem emergir seu verdadeiro significado.
 
            O ritual, enfim, oferece uma proteção contra a experiência religiosa direta, sem mediação. Só os grandes gênios religiosos - como Moisés diante da sarça ardente - são capazes de tais experiências; Quanto a nós, temos necessidade da mediação protetora do rito e do efeito de delongas ou de retardo, gerado pela repetição.
 
            Com efeito, o ritual será sempre associado a certa monotonia e talvez a determinado tédio. Talvez havemos simplesmente de ter consciência dele e de imaginá-lo, com a condição de não perder de vista a que ponto pode ser indispensável este aspecto “aborrecido” do ritual.
 
            Algumas reflexões ainda poderão ser úteis. Pondo constantemente o acento no lado “aborrecido” do ritual, manifestamos a que ponto nossa experiência da liturgia torna-se individualista. O ritual é, no entanto, necessário a fim de reunir a comunidade e permitir-lhe celebrar. Se fazemos da liturgia a expressão da emoção mais individual, eliminamos toda possibilidade de celebração comunitária. Se, ao invés, entramos na celebração eucarística sem prévia ratio agendi, é porque queremos permitir a várias pessoas celebrar no mesmo ritmo. Não pode haver comunidade sem ritual.
 
            Além disso, devemos guardar na mente que é por convite de Deus que assistimos à liturgia . A liturgia não é uma festa que organizamos em função de nossas preferências pessoais. A festa é de Deus. Estamos presentes para corresponder a um convite e não simplesmente para satisfazer a necessidades pessoais.
 
            Muitas coisas dependem da pessoa do presidente. Cabe-lhe dirigir um ato comunitário em nome de Deus. Ele é o veículo vivo de algo que o ultrapassa. Ele não é nem robô, nem ator; é servo.
 
14. OS FUNDAMENTOS CÓSMICOS DA LITURGIA
            Um aspecto importante da liturgia é sua relação para com o cosmos. Vários de seus símbolos são extraídos das realidades cósmicas tais como o fogo, a luz, a água, o alimento, os gestos e as atitudes do corpo. O tempo e as estações, a posição do sol e da lua, a noite e o dia, o verão e o inverno estão todos relacionados com a liturgia. No evento litúrgico, todos os grandes arquétipos humanos têm seu lugar.
 
            Importa, contudo, que as realidades cósmicas em questão têm a possibilidade de aparecer em plena realidade enquanto criaturas. A liturgia funciona com coisas “reais”. Se, em certa medido, tudo é transformado pela cultura, a criação cultural jamais deve mascarar a natureza. O fogo deve ser verdadeiro fogo, a luz verdadeira luz, os tecidos verdadeiros tecidos, a madeira verdadeira madeira. A hora do dia há de ser respeitada, principalmente para a celebração da vigília pascal. Assim a liturgia torna-se depositária da autenticidade dos objetos que nos cercam. No serviço prestado a Deus não utilizamos senão as mais belas coisas que ele criou. A lado prático e o conforto devem aqui ceder o lugar ao autêntico.
 
            Devemos, contudo, ter presente que os símbolos judeus e cristãos deixaram de ser puramente cósmicos ou naturais. Foram determinados e condicionados pela história de Deus com o seu povo. Mesmo se todas as festas judeu-cristãs têm origem agrária, foram todas condicionadas pelos acontecimentos da salvação, situados na história e não são mais naturais; prendem-se a um fato histórico. A festa de Páscoa não é mais puramente agrícola; é também a celebração do êxodo do Egito. Sheboth não é mais a festa das primícias mas a do dom da Lei no monte Sinai. Quando às festas cristãs são inteiramente determinadas pela historicidade dos mistérios de Cristo. A questão é ainda mais clara. Não há festas puramene naturais ou cósmicas. O calendário litúrgico cristão não é um calendário puramente natural. É antes formado de uma série de dias comemorativos que celebram os acontecimentos históricos que advieram entre Deus e o seu povo.
 
15. A LITURGIA E OS SENTIDOS
            A liturgia é estreitamente ligada ao corpo e aos sentidos. De fato, há apenas um simbolismo fundamental, o do corpo humano como expressão da alma humana, e portanto lugar primeiro de todos os símbolos. Todos os outros gestos simbólicos se situam em continuidade com o corpo humano.
 
            O olho é o mais ativo dos sentidos. Na liturgia contemporânea, no entanto, existe a tendência de subestimá-lo. Oferece muito ao ouvido e pouco à vista. Houve um tempo em que era o contrário. Houve uma época em que a dimensão verbal não era compreendida, e colocava-se no primeiro plano a dimensão visual. Certos gestos litúrgicos secundários como a elevação do pão e do vinho na consagração, são a consequência disso. Até o culto eucarístico fora da missa encontra aqui seu fundamento. Certamente haveria a possibilidade de revalorizar o lado visual da liturgia, mas isto não quer dizer que será necessário acrescentar-lhe novos efeitos visuais. Seria melhor deixar falarem os grandes símbolos. Por exemplo, o batismo pode simbolizar “o acolhimento na Igreja” se realizado numa igreja praticamente vazia?( Aqui ainda, não é o caso da América do Norte). Pode ser compreendido como um banho se está reduzido a uma simples aspersão? Como falar de “ouvir a mensagem” se todos estão sentados, com a cabeça curvada, ocupados a ler os textos no missal hebdomadário, ao invés de escutar? Os três pontos de referência da celebração - a sede do presidente, o ambon e o altar - têm também forte significado visual.
 
            É a comunidade que ocupa o lugar mais importante na liturgia cristã, e a justo título. A liturgia celebra a fé, e a “a fé vem da comunidade”. De fato, se os mistérios celebrados mergulham as raízes em fatos históricos e são também celebrações comemorativas, isto deve ser posto em evidência. A história é impossível sem a “narrativa”.
 
            É importante respeitar os diferentes gêneros: a leitura não é uma oração, o hino não é um salmo, o canto não é uma exortação e a homilia não é uma série de avisos. Cada gênero há de ser executado conforme o merece no plano auditivo. Além disso, é claro que nem a retórica, nem a teatralidade, nem o pathos tem lugar na liturgia . A pessoa que lê não está ali para atuar mas para se fazer o humilde instrumento de uma palavra que vem de mais longe. O impacto exagerado da personalidade individual do homem ou da mulher que faz a leitura pode matar a liturgia e eliminar suas harmônicas.
 
            Até o lugar de onde é proclamada a leitura tem importância. É melhor não ler no meio da comunidade porque a palavra vem de outra parte. Ela é proclamada; não nasce simplesmente da comunidade. É igualmente preferível ler do Evangeliário e de um ambon cercado de símbolos que suscitam o respeito - luz, incenso, acólitos.
 
            O sentido do tato encontra a expressão mais profunda na imposição das mãos e na unção. Esses
gestos acham-se entre os mais físicos da liturgia e podem ter um impacto enorme sobre a pessoa. A oração recitada diante duma pessoa doente toma um caráter diferente se houver imposição das mãos ou uma unção.
 
            O sentido do olfato, para concluir, não é praticamente empregado na liturgia. Não lucramos por relegar o incenso ao domínio do supérfluo e do incômodo. A Igreja oriental é muito melhor dotada a este respeito. Um exemplo particularmente absurdo é o santo crisma sem odor que empregamos para sugerir “o bom odor de Cristo” aos novos confirmados. Aqui ainda, a Igreja oriental está a nossa frente várias léguas - talvez mesmo mais longe - pois utiliza dezenas de perfumes e especiarias para confeccionar o santo crisma.
 
16. A “INCULTURAÇÃO”
            O problema da ïnculturação” é um fenômeno recente. Foi tratado num notável documento da Sagrada Congregação para os Sacramentos e o Culto divino, publicado em 1994.
 
            Não podemos discutir aqui todos os aspectos do problema. Mas o princípio é claro. Se a liturgia depende da encarnação, é indispensável que seja inculturada nas diferentes culturas da humanidade. É natural. A liturgia deve ser inculturada, ou antes, a liturgia há de se inculturará se for vivida na fé e no amor de Cristo pelos povos de todas as culturas.
 
            Mas, há limites. Não é função da liturgia apenas estruturar a religiosidade humana; ela informa os mistérios cristãos. Esses mistérios se desenrolaram na história, num lugar e tempo particulares e em ligação com ritos e símbolos particulares. A última Ceia não é uma refeição religiosa qualquer; é a refeição do Senhor com seus discípulos na vigília da paixão. Conclui-se daí que todas as celebrações eucarísticas devem ser reconhecíveis, supondo referências e conexões formais. Não há refeição religiosa cultural equivalente à Ceia de Cristo. neste sentido, jamais será possível “iïnculturar” completamente a Eucaristia.
           
            A liturgia não é somente um dado dependente da encarnação; Pertence também à ordem da salvação. Como tal, exerce influência salutar, salvífica, sobre as culturas humanas. Não é qualquer prática religiosa ou “liturgia “popular que é capaz de veicular a liturgia cristã. Há níveis de incompatibilidade, e orações e práticas inconvenientes na liturgia cristã. Não será sempre fácil discernir,
 
            A inculturação não se produz tanto à mesa de trabalho do liturgista quanto na própria prática litúrgica. Não é caso de refinamento burocrático mas de discernimento leal, fiel, feito na própria celebração. Somente após longa e profunda imersão na verdadeira liturgia , acompanhada de profundo desejo de Cristo e de seus mistérios, da tradição da Igreja e da historicização da liturgia “natural” pela vinda de Cristo que veremos emergir, lenta mais seguramente, uma liturgia inculturada. Foi assim que a liturgia judia tornou-se grega, e a liturgia grega se transformou em romana; que a liturgia germânica e anglo-saxã aumentaram e completaram a liturgia romana, etc. Este trabalho de inculturação foi sempre fruto do pensamento e da ação de grandes personagens da Igreja bem como do discernimento na fé dos diversos povos do mundo.
 
            É necessária a linguagem inclusiva para uma inculturação? A questão fica aberta. Não foi resolvida e mereceria tratamento à parte, e de modo mais profundo do que é possível aqui. De fato, continua aberta a questão de saber se temos na verdade radical mudança cultural e se essa mudança tem ou não consequências religiosas. Parece-me ser problema antropológico cuja importância não afeta somente os textos bíblicos e litúrgicos mas o uso da linguagem como tal e todo o domínio do convívio entre os homens e as mulheres.
 
17. A LITURGIA E A VIDA
            Nestes últimos anos, houve ampla discussão sobre o caráter exótico da liturgia e da distância entre ela e a vida cotidiana dos cristãos. É verdade que uma liturgia sem impacto ou conseqüências no modo de viver dos cristãos fracassa. Se, conforme ensina o Papa Leão, o Grande, os mistérios cristãos passaram para a liturgia, é igualmente verdade que a liturgia deve atingir a vida moral e espiritual dos cristãos. Imitamini quod tractatis  - “Ponde em prática o que fazeis na liturgia “- proclama o antigo texto da liturgia da ordenação.
 
            Algumas pessoas concluíram deste axioma que a liturgia não é tão importante quanto a vida diária ou que serve no máximo de preparação, de “estímulo” para a vida, uma espécie de opção facultativa para os que dela precisarem, mas supérflua para os demais. Outros sugeriram que há coincidência entre liturgia e vida, e que o verdadeiro serviço de Deus se faz fora da Igreja, no cotidiano.
 
            Não há coincidência entre vida e liturgia ; esta entretém-se antes por uma relação dialética com a vida. O domingo não é a segunda feira, e vice-versa.
 
            Além da profundidade e da importância do conteúdo da liturgia, fonte indispensável de graça e de energia para a vida, lembremo-nos também de que o rito dominical vem romper a monotonia, diferenciar e articular o tempo humano. A liturgia não é a vida, e a vida não é a liturgia. Ambas são irredutíveis e ambas necessárias. Não coincidem.
 
            Diz-se por vezes que a liturgia informa a vida, que simboliza a vida. Não é completamente falso. O que fazemos durante a semana de maneira diluída, realizamos também na liturgia de modo mais concentrado e purificado. Vivemos para Deus e para os outros. A liturgia, contudo, não é apenas símbolo da vida humana. A liturgia simboliza e torna presentes: primeiro, os mistérios da salvação, as palavras e gestos de Cristo , e ainda nossos próprios gestos, na medida em que são refletidos, purificados e remidos em Cristo . Seus mistérios -presentes na liturgia - são nossos arquétipos. Esta determinação cristológica da vida na liturgia é essencial.
 
            De outro lado, é um fato que a liturgia encontra sua aplicação na vida cotidiana. Derrama-se sobre ela e a nutre, mas não coincide com ela nem a ela se conforma. Vida e liturgia têm recíproca relação dialética. A vida cristã funda-se sobre duas coisas: cultus e charitas.
 
 
 
 
                                                           NOTAS DAS TRADUTORAS
 
1) À conferência precede a seguinte observação:
O Cardeal Godfried Daneels, arcebispo de Malines-Bruxelas (Bélgica), foi conferencista na Assembléia plenária anual da Conferência dos Bispos católicos do Canadá  (CECC), que se realizou de 17 a 11 de outubro último. O tema de sua alocução foi a liturgia e sua evolução após o Concílio Vaticano II. Publicamos o texto desta conferência.
 
2) A página 9 é a última. O final é um tanto abrupto.
 
3) Endereço da Revista, se for preciso licença para publicação:
La Documentation Catholique - 3, rue Bayard - 75008 -Paris.
 
4) Nossas traduções, quando necessário declarar quem fez o trabalho, traz a inscrição:
Monjas beneditinas - Mosteiro de Maria Mãe do Cristo - Caxambu- MG.
 


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