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A liturgia: Celebração da obra da salvação

Pe. Gregório Lutz
 
            Estudamos ontem a história e a estrutura da “Sacrosanctum Concilium”. O Vaticano II, do qual a “Sacrosanctum Concilium”é o primeiro documento promulgado, tinha como objetivo geral: “Fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis” e se propôs, para conquistar isso, antes de mais nada: “Acomodar melhor às necessidades de nossa época as instituições que são suscetíveis de mudanças” ( SC 1 ).
            Sem dúvida, o campo em que se sentia mais, na metade do século passado, tal necessidade, era o da liturgia. A liturgia tinha sido considerada nos últimos séculos que precederam o Concílio Vaticano II, sobretudo como conjunto de cerimônias e ritos, que se compreendiam até nos menores detalhes como leis imutáveis e universais para toda a Igreja. Este conceito de liturgia tinha sido questionado desde o início do século 20 pelo movimento litúrgico. Seus promotores chegaram a uma compreensão teológica e não mais rubricista e juridiscista da liturgia, que Pio XII sancionou em sua encíclica “Mediator Dei” sobre a liturgia, declarando que “da verdadeira e genuína noção da sagrada liturgia se afastam totalmente aqueles que a entendem como a parte externa e sensível do culto divino, e não se afastam menos aqueles que a consideram como a soma de leis e prescrições, dos quais a hierarquia manda estabelecer e ordenar os sacros ritos. Em outras palavras, a liturgia não é algo meramente externo ou uma decoração estética, nem uma mera coleção de rubricas”. Ele definiu a liturgia como “o culto público que o nosso Redentor, cabeça da Igreja, presta ao Pai celeste, e que a comunidade dos fiéis presta ao seu fundador e através dele ao Pai”.
Na época de Pio XII também já aconteceram algumas reformas, como a da vigília pascal em 1951 e da semana santa em 1955. Estas conquistas no campo da ciência e da prática litúrgicas alimentavam ainda mais as esperanças daqueles que já tinham embarcado na nova teologia da liturgia e nas novas práticas que o movimento litúrgico incentivava. Mais rápido e mais perfeitamente do que se podia prever, estas esperanças se realizaram pela constituição sobre a liturgia do Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium”, que com razão foi chamada a Magna Carta da mais importante reforma litúrgica de todos os tempos.
Como ouvimos ontem, antes de tratar detalhada e concretamente da reforma das diferentes celebrações litúrgicas, o Concílio deu na Sacrosanctum Concilium os princípios gerais que deviam orientar a reforma litúrgica e se debruçou primeiro sobre a natureza da liturgia. Hoje refletiremos quase exclusivamente sobre os dois primeiros artigos da descrição da natureza da liturgia, que tratam da história da salvação, particularmente do seu centro que é a páscoa de Cristo, e da memória desta história na celebração litúrgica.
 
1.      A história da salvação
 
A SC começa a tratar da natureza da liturgia, no seu artigo 5, lembrando em grandes linhas a história da salvação. No início dessa história está a vontade de Deus de “salvar e fazer chegar ao conhecimento da verdade todas as pessoas humanas”. Para conseguir isso, Deus acompanha toda a história, particularmente do seu povo eleito, comunicando-se com ele sobretudo pelos profetas, mas finalmente por seu próprio Filho. Ele completou a obra da redenção da humanidade e da glorificação de Deus principalmente pela sua morte e ressurreição. Já neste primeiro artigo debaixo do título “A natureza da liturgia”, o Concílio como que prolonga esta história de Deus com a humanidade dizendo que por Jesus Cristo “nos foi comunicada a plenitude do culto divino” e que “do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”.
             Nesta exposição do Vaticano II sobre a história da salvação podemos destacar várias afirmações, em vista da própria liturgia:
-         A vontade de Deus de salvar a humanidade, seu eterno plano de salvação, que é a fonte de toda a história que chega a seu ponto culminante na páscoa do seu Filho, revelando assim que é um Deus de amor. Este é o grande mistério da fé que celebramos na liturgia.
-         A santificação das pessoas humanas e a glorificação de deus são a finalidade da história da salvação, como também da liturgia.
-         Do lado aberto de Cristo na cruz nasceu a Igreja.
Nesta última afirmação vou me deter primeiro, em seguida no mistério pascal.
 
2.      A origem da Igreja e da liturgia
 
     Ao dizer que “do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”, repetindo assim palavras de santo Agostinho, o Concílio se refere evidentemente ao relato do evangelista são João sobre a morte de Jesus. Para dizer que Jesus morreu ele escreveu: “Entregou o espírito” ( Jo 19, 30 ). Muitos dos santos padres viam nisso uma segunda afirmação do evangelista, a saber que Jesus entregou, na hora da sua morte, o Espírito Santo. Esta interpretação certamente se baseia no contexto do quarto evangelho.
     Como lemos no sétimo capítulo do evangelho de são João, na festa do templo Jesus anunciou água viva. O evangelho explica que Jesus estava falando do Espírito, que ainda não havia, porque Jesus ainda não foi glorificado ( Cf Jo 7, 37 – 39 ). A glorificação de Jesus, no entanto, coincide para são João com a exaltação do Filho do Homem na cruz ( Cf. Jo 3, 14s ). Na base desta interpretação se compreende bem que o Ressuscitado na tarde do dia da ressurreição soprou sobre os apóstolos e lhes disse: “” “Recebei o Espírito Santo” ( Jo 20, 22 ). Mas devemos dar um passo a mais. Em antigas e recentes representações iconográficas da morte de Jesus ilustra-se a abertura do lado aberto pela lança assim que uma figura feminina está debaixo da cruz com um cálice nas mãos. Para dentro deste cálice jorram o sangue e a água. Os padres da igreja interpretam também a abertura do lado de Jesus como derramamento do Espírito Santo, vendo na mulher com o cálice a Igreja e na água e no sangue os sacramentos do batismo e da eucaristia. Como lemos na “Sacrosanctum Concílium”, em santo Agostinho e em muitos outros padres da Igreja, este derramamento do Espírito é o nascimento da Igreja como sacramento universal de salvação do qual os sete sacramentos, também os sacramentais e as outras celebrações litúrgicas, são como que um desdobramento. A Igreja e a liturgia nasceram do coração de Jesus.
Já que estamos falando em nascimento da Igreja, parece-me bom completar esta visão a partir do evangelho de são Mateus, onde se pode ver como ela foi concebida. Lemos neste evangelho, no fim do capítulo 9, que Jesus, percorrendo as cidades e os povoados, ensinando o evangelho do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades, “ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor”. Então ele pediu aos discípulos que rezassem, para que o Senhor enviasse operários à messe; mas também e sobretudo ele chamou os doze e “deu- lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda sorte de males e enfermidades”( Mt 9, 35 - 10,1 ). Estes doze são, evidentemente, o núcleo da futura Igreja. Não será permitido entender este texto no sentido de que a Igreja foi concebida pela compaixão de Jesus, no seu coração compassivo? Podemos assim agora concluir que são João e são Mateus têm, no fundo, a mesma visão da origem da Igreja. E Lucas no fundo não discordaria de são João e são Mateus sobre a origem da Igreja pelo derramamento do Espírito Santo, embora ele a descreva de modo diferente.
Parece-me que a “Sacrosanctum Concilium” confirma esta visão da origem da Igreja e com ela da liturgia, dizendo no artigo 6 que a Igreja, que, como vimos no artigo 5, nasceu na cruz, “no dia de pentecostes apareceu ao mundo”. Para a interpretação do texto citado de são Mateus, que apresentei, vendo aí a conceição da Igreja no coração de Jesus, não posso indicar referências, mas penso que esteja em harmonia com o contexto que citei.
 
3.      O mistério pascal           
 
Depois de ter esboçado a história da salvação, o Concílio Vaticano II diz em sua constituição sobre a liturgia: “Esta obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, da qual foram prelúdio as maravilhas operadas no povo do antigo testamento, completou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal de sua paixão, ressurreição dos mortos e gloriosa ascensão. Por este mistério, Cristo, ‘morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando, recuperou a nossa vida’( Prefácio da páscoa). Pois do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja. Portanto, assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho a toda criatura, (...) mas ainda para levarem a efeito o que anunciam: a obra da salvação através do sacrifício e dos sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica. (...) Nunca, depois (...) a Igreja deixou de reunir-se para celebrar o mistério pascal: lendo ‘tudo quanto a ele se referia em todas as escrituras’ ( Lc 24, 27 ), celebrando a eucaristia, na qual se torna presente a vitória e o triunfo da morte
( Conc. de Trento) e, ao mesmo tempo, dando graças ‘a Deus pelo dom inefável’ ( 2 Cor 9, 15 ) em Jesus Cristo, ‘para louvor de sua glória’ ( Ef 1, 12 ), pela força do Espírito Santo”
( SC 5s ).
O mistério pascal é, portanto, a páscoa de Jesus que ele viveu, há quase dois mil anos, sua paixão, morte, ressurreição e ascensão. Esta páscoa, no entanto, é o ponto culminante de toda a vida e obra pascal de Jesus. E devemos abrir o horizonte ainda mais: Ela tinha seus problemas no antigo testamento e se completará no fim dos tempos. Ela é realmente o centro de toda a história da salvação. No entanto, desde que Jesus, que se tinha tornado um de nós pela encarnação, nos uniu a si pelo dom do Espírito Santo, que é o fruto da sua páscoa, somos um com ele e ele conosco como membros do seu corpo místico, como filhos e filhas do Pai do céu. Assim também nossa vida e história são vida e história de Cristo glorioso. Os bispos latino-americanos reunidos em Medellín, no ano de 1968, disseram claramente que Cristo está “ativamente presente em nossa história” e que “não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o verdadeiro desenvolvimento” (Docum. de Medellín, introd. n. 5-6 ). Portanto, nosso sofrer e vencer são participação da morte e ressurreição de Cristo, da sua páscoa. A páscoa de Cristo continua na páscoa do povo. Ora, é esta páscoa de Cristo e do povo que celebramos quando na liturgia anunciamos a morte do Senhor e proclamamos a sua ressurreição, até que ele venha. É como também os bispos em Medellín constataram: “A presença do mistério da salvação, enquanto a humanidade peregrina até sua plena realização na parusia do Senhor, culmina na celebração da liturgia eclesial”( Cap. 9,2 ).
Ainda uma outra dimensão do mistério pascal e de sua celebração foi destacada em Medellín, quando os bispos aí reunidos declaram: “o gesto litúrgico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma contínua conversão” ( 9,3 ). Logo em seguida lemos no documento de Medellín: “Na hora atual de nossa América latina, como em todos os tempos, a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso como a realidade humana (...) precisamente porque toda a criação está inserida no desígnio salvador”( 9,4 ).
Desta maneira Medellín explicitou e acentuou uma constatação que o Concílio Vaticano II já tinha feito, dizendo que “a liturgia é cume para o qual tende a ação da igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força”( SC 10 ). Embora o Concílio tenha falado da liturgia como cume e fonte da ação da Igreja, é evidente que a liturgia, na qual celebramos o mistério pascal, é o ponto culminante também de toda a vida da igreja, e não apenas da Igreja, e sim de toda a humanidade e de sua história.
 
4.      Como memória, a liturgia é momento da história da salvação
 
 Depois de ter apresentado no Artigo 5 a história da salvação que culmina na morte e ressurreição de Jesus, assim como o nascimento da Igreja e com ela da liturgia, a “Sacrosanctum Concilium” passa a tratar, no artigo 6, da liturgia como celebração desta história, particularmente da obra salvífica de Jesus cristo, na liturgia.
Permitam-me de repetir o que lemos no início deste artigo: “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho (...) mas ainda para levarem a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do sacrifício e dos sacramentos, sobre os quais gira toda a vida ltúrgica”. A afirmação principal deste texto é retomada no início do artigo 7 da constituição: “ para levar a efeito obra tão importante Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas”. Assim se coloca para nós a questão: Se Jesus nos salvou, o que a liturgia acrescenta a esta obra? O significa que ela deve ser levada a efeito?
Não se trata de completar ou continuar a obra de Cristo, como se ela não tivesse sido prefeita. Deus fez através de Jesus tudo para a nossa salvação. Mas ele nos quer salvar como seres livres. Livremente nos colocamos contra Deus pelo pecado, livremente devemos aceitar a salvação que Deus operou para nós. Precisamente assim a salvação pode ter efeito, se nós nos voltarmos para Deus, se ouvimos sua palavra e a pomos em prática e se acolhemos o presente de uma nova vida, de uma nova história, do reino que Jesus veio anunciar. Esta acolhida e aceitação acontecem por uma vida em obediência a Deus, mas de modo especialmente consciente e interno na liturgia. É como também a constituição sobre a liturgia diz: “Para levar a efeito obra tão importante ( a obra da salvação) Cristo está sempre presente em sua igreja, sobretudo nas ações litúrgicas’(SC 7). Portanto, dizendo “sim” a Deus, sua vontade e sua obra, e sobretudo celebrando a liturgia este nosso sim vivido, é que se leva a efeito a salvação. Assim a liturgia cristã, ela mesma um fato histórico, se torna momento privilegiado da história da salvação.
 Seria bem compreensível que alguém pergunte: Como é que na liturgia pode acontecer salvação? Acabamos de ver que a liturgia não é uma ação meramente humana. Cristo está presente na celebração litúrgica como agente principal. Devemos igualmente lembrar que toda ação litúrgica acontece, como nos diz o Vaticano II, na força do Espírito Santo ( cf. SC 6 ).
           Nesta altura da nossa reflexão convém recorrer ao conceito de “memória”, para entendermos bem a eficácia salvífica da liturgia. Memória litúrgica não é um simples lembrar. Lembramos, sim, a páscoa histórica de Cristo e do seu povo, mas a lembramos na presença de cristo e na força do Espírito santo. Lembrando a pessoa e a obra de Cristo nos abrimos para ele. Com ele diz no livro do apocalipse, ele está à porta e bate. Se abrimos a porta, ele entra para cear conosco ( cf. Ap 3, 20 ). Isso quer dizer que ele entra em comunhão íntima conosco, e esta comunhão de vida entre deus e nós é salvação.
           Ninguém pode duvidar que tal liturgia seria um culto agradável a Deus, suposto que celebramos ritualmente aquilo que vivemos. Não é apenas um fazer externo, mas a expressão de uma atitude interna e da nossa vida do dia-a-dia. O que assim vale de cada um de nós, vale das nossas famílias, das nossas comunidades eclesiais, vale da Igreja e de certo modo de toda a humanidade e de sua história. Todas as pessoas de boa vontade que vivem o amor e a solidariedade, que lutam pela justiça e a paz, estão fazendo a vontade de Deus. Embora muitos não tenham consciência de sua vida pascal em união com Jesus Cristo e não a celebram na liturgia cristã ou talvez de maneira alguma, também neles é levada a efeito a obra salvífica de Cristo. Toda a história da humanidade é história da salvação, porque nela se leva a efeito a obra redentora de Cristo até o fim dos tempos. A liturgia é um momento privilegiado deste história. Sendo assim, não poderíamos dispensar toda a liturgia e apenas viver um culto espiritual? Não, porque desde Caim e Abel a humanidade, de modo particular – para não falar em outras religiões – o povo da antiga aliança também celebrava sua vida e história. Assim fez o próprio Jesus, e ele nos mandou fazer o mesmo em sua memória. Celebrar é uma dimensão essencial e indispensável de uma vida verdadeira e plenamente humana. Na festa, celebrando a vida, vivemos mesmo. Por isso, não há nada mais humano do que celebrar na liturgia a verdadeira vida de cada um de nós e de toda a humanidade, vida que Jesus nos mereceu por sua morte e ressurreição.
 
                                           (Palestra feita na 17a. Semana de Liturgia, realizada em São Paulo,
                                             de 13 a 17 de outubro de 2003)
 
 


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